domingo, 25 de julho de 2010



Eu nunca me encantei com o palhaço, no entanto, sempre fui tomado de afeição e carinho pelo artista que fazia o personagem do palhaço. Enquanto o malabarista me impressionava, a trapezista me dava calafrios, o palhaço me emocionava.

Não pela caricatura, não pela roupa extravagante, não pela pintura no rosto, não pelos tombos... Mas pelo olhar. Porque eu olhava profundamente no seu olho toda vez que chegava perto. E lá dentro, por trás da máscara de tinta, por trás da careta, eu via um artista de verdade.

Um artista que para fazer a sua arte precisava ter muito mais que habilidades e treinos (como era o caso do malabarista e da trapezista), precisava ter alma de artista, precisava mergulhar na vivência humana, buscar a infância perdida daqueles olhares cúmplices da platéia.

Para mim o palhaço era o verdadeiro mágico, seus tombos falsos, seus risos de ocasião, a gargalhada da platéia... Tudo aquilo fazia parte daquele menino que eu via lá dentro dos seus olhos e era esse menino que me hipnotizava, era com esse menino residente nos seus olhos que eu conversava.

Muitas vezes em silêncio, calado, que é meu jeito de conversar com as pessoas que me emocionam. Então, para mim tanto importava como ele estava vestido ou como seu rosto estava pintado. Eu queria ver aquele menino escondido nos olhos do palhaço. E rir dele e rir com ele.

Veleiro

sábado, 24 de julho de 2010

Saudade


Tenho um querer bem grande aos distantes, amor que nasce da impossibilidade de ter algumas pessoas por perto. Amor que nasce dessa dificuldade. Amor que se mistura às palavras que atropelamos no meio do caminho de um e-mail apressado e não percebemos o estrago. Amor que nasce desse estrago, dessa cicatriz.

Se fosse ao vivo a gente bem ouviria o coração dizer: vai devagar com o andor, lê as letras miúdas estampadas no meu peito que diz "cuidado é frágil".

Mas assim de longe, na distância que separa os setembros, a gente precisa lembrar que o silêncio distante é diferente do silêncio ao alcance da mão. O silêncio distante é um abismo. E a gente sai por aí tocando a vida, feito fome que nasce quando a boca está perto da comida. E até desiste de olhar o abismo com medo de ser tragado por ele.

Para lidar com o silêncio distante só escrevendo que é o meu modo estranho de aproximar a boca ao pé do ouvido. Para lidar com o silêncio distante, quando a carta não chega ou volta sem aviso de recebimento, a gente se aproxima dos que estão por perto e busca o aconchego em quem sem faz abrigo. E busca segurança em quem abre a porta e oferece café. E fica feliz, mas sente saudade.

Eu sofro de saudade crônica. De quem eu quero bem, de quem me faz escrever horas a fio, de quem parece entender o caminho incerto e vulnerável da poesia. Eu tenho saudade de quem me apresenta boas canções, de quem me indica um bom livro, de quem me escreve contando algo banal do seu cotidiano e consegue modificar o meu dia.

Ás vezes uma palavra basta para acender uma luz aqui. Uma palavra que nunca mais ninguém falou. Uma só palavra...

Eu tenho saudade de quem canta com o sotaque luso umas coisas brasileiríssimas e tem uma flor lilás no cabelo e um sorriso encantador.

Eu tenho saudade de quem adora receber as pessoas na sua cidade e arma algum encontro só pra celebrar a visita, fazendo o visitante se sentir querido ou mais querido por um dia.

Eu tenho saudade de quem não para nunca de trabalhar e não tem tempo para quase nada, a não ser para ligar no meio de uma viagem a trabalho só para te desejar feliz aniversário.

Eu tenho saudade de muita gente, e uma saudade especial de quem vai buscar a gente no aeroporto e senta no piano do restaurante do aeroporto para tocar e cantar canções. Só pela surpresa, só para fazer você se sentir especial e bem vindo na cidade.

Eu tenho saudade de quem abre a sua casa e faz uma roda de poesia e música e escreve um livro de poesia que nunca mais saiu da minha cabeça e que faço questão de colocá-lo num lugar de destaque na minha estante. Ali dentro tem uns versos que me pegam na alma, e eu sei exatamente a causa, o motivo e a circunstância...

Eu tenho saudade de quem descobre sua sobremesa preferida e quando você chega na cidade dessa pessoa, ela leva a sobremesa num isopor até o lugar onde você está. No meio de um restaurante, no meio de um monte de gente. E daí? Não é pra ninguém entender, é pra sentir. E nunca mais esquecer.

Eu tenho saudade de encontrar pessoalmente um amigo muito amigo e ficar pensando: será que vai ser muito estranho se eu me levantar agora e der um abraço? Só por abraçar mesmo, de agradecimento pelo mundo de cartas, discussões e compreensões. Discutir com pessoas inteligentes é sempre enriquecedor. Ser compreendido por elas é ainda melhor.

Enfim, eu tenho saudade, por isso escrevo. E muito, e muito.

Veleiro

Um dia especial


Um dia recebi um poema que me denunciava. Era meu retrato exposto em forma de versos. Era um retrato visto por olhos bons. Mas sendo o autor quem era, logo percebi que o poema também era letra de canção e com melodia de Alexandre Cueva e Affonso Moraes. O poema na verdade era uma canção.

Alguns meses depois estive em São Paulo, e num bar lotado, os compositores foram ao palco cantar essa canção. Impossível descrever esse momento. Fiquei imóvel, mudo, numa emoção absolutamente inédita para mim.


Veleiro Perdido
Léo Nogueira
 
Sou um veleiro estranho
Roubo do mar seu tamanho
Pra caber na imensidão
E, quando me sinto inteiro,
Sou agulha num palheiro
No celeiro da criação
 
Sou um veleiro perdido
Que só encontra sentido
Quando perde a direção
Não creio na fé que sinto
A fé é um marujo faminto
De uma outra embarcação
 
Eu sou somente um veleiro
Cruel, porque verdadeiro
E mais fiel que um cão
Fiel a um dono tirano
Meu amigo e oceano
A quem chamo coração
 
Sou um veleiro estranho
Às vezes, no mar me entranho
Pra que a solidão me banhe
E, quando me sinto parco,
Lembro que sou só um barco
No colo da nave-mãe



domingo, 18 de abril de 2010

Pensamento do dia.

Saiu pra passear perdido e voltou encontrado. Deixou o sorriso triste na primeira esquina, a angústia no banco da praça. Ser feliz dói?

Veleiro

sábado, 22 de agosto de 2009

A lição do sonho possível






Há uns 4 anos atrás estive numa cidade do interior do Ceará chamada Brejo Santo. É uma cidade que fica depois de Juazeiro, Barbalha, Mauriti, já quase divisa com Pernambuco. Um amigo que era juiz numa cidade vizinha havia me convidado para passar uns dias por lá, para tomar alguns tragos e conversar sobre uns assuntos importantes, uma vez que a esposa estaria viajando e poderíamos beber até cair.


Fui. Na noite da minha chegada já ficamos em Brejo Santo (uma cidade próxima da cidade que ele estava morando - Jati) para as amenidades de sempre. Rodamos pela cidade de Brejo Santo, e ele brincando dizia: “é o lugar mais desenvolvido que tem por perto”. A cidade era pequena, tinha uma rodoviária, umas lojas de comércio, um hotel municipal e uma churrascaria onde nos abancamos e ficamos a beber e a conversar sobre assuntos vários.


No dia seguinte, já em Jati, ele tinha uma audiência pela manhã. Como fiquei com o tempo livre fui visitar a minúscula cidade do interior do Ceará onde ele exercia a jurisdição. Entrei nos botecos, olhei o artesanato local e fiquei flanando pela cidade enquanto a audiência acontecia. Caminhando por uma das ruas entrei na farmácia (a única da cidade) e fiquei conversando com a atendente de 20 e poucos anos de idade.


Ela era morena, tinha olhos castanhos, meio amendoados, e guardava um sorriso nos gestos. Havia naquela moça uma alegria camuflada de tristeza, um jeito de quem guarda a esperança num lugar muito escondido da alma. Digo isso porque havia no seu olhar um mundo de ilusões quando me perguntou: “O senhor é da cidade grande?” Respondi que era de Fortaleza. Nesse momento ela mirou o chão.


Fiquei conversando sobre o tempo, a cidade, o calor, o sertão, a chuva que não vinha e outras coisas comuns. Ela foi respondendo e me contando um pouco sobre o seu dia a dia. Era balconista da farmácia, morava com o pai viúvo, tinha 6 irmãos e 3 irmãs e todos já tinham ido para São Paulo, dizia isso com uma pontada de desprezo. Uns voltaram e ficaram em Pernambuco, dois morreram por lá, outros voltaram para Jati sem nada nas mãos ou nos bolsos, e assim foi me contando a tragédia familiar de pobreza, miséria e esperança que não deu em nada.


Quando fiz movimento para ir embora, pois já passava do meio dia, ela disse: “Já vai? Fica mais um pouco”. Respondi afirmativamente, mas no fundo já não queria ir. Foi quando perguntei: “Você tem vontade de conhecer Fortaleza?” Ela me olhou fixamente e respondeu categórica: “Não, nunca pensei nisso, acho que não mesmo.” Fiquei surpreso. Então, perguntei: “Você tem algum sonho?”.


Dessa vez ela nem titubeou, não olhou para o chão, nem fez pose categórica. Disse serenamente como se saboreasse cada palavra: “Meu sonho, meu sonho mesmo, é um dia morar em Brejo Santo.” Brejo Santo, veja só. Aquela cidadezinha antes de Jati que eu havia conhecido na noite anterior... Desejei boa sorte e parti.

Por muito tempo pensei nessa menina, nos meus pensamentos e recordações ela ficou conhecida como a menina do sonho possível. Com ela aprendi uma lição que carrego até hoje: o melhor sonho é aquele que está quase ao alcance da mão, ali bem perto e que a gente pensa muito antes de dar o primeiro passo. Como a distância breve entre Jati e Brejo Santo.


Assim, passei a desejar, a esperar e a sonhar com o que está bem próximo de mim, quase ao alcance da mão, porque sonho, sonho mesmo, é o que a gente vai conquistar, mais cedo ou mais tarde, o resto é delírio.


Será que a menina do sonho possível já está morando em Brejo Santo? Desconfio que sim. Se duvidar deve ser a gerente da maior farmácia da cidade dos seus sonhos: Brejo Santo. Que Deus a proteja, para sempre.

Veleiro

sábado, 15 de agosto de 2009

Pequenos vestígios de amor


Um cheiro ficou pelo quarto
Era do amor que se despedia
Na moldura do porta-retratos
Não ficou nem uma fotografia

No armário o espaço aberto
O lugar onde as roupas ficavam
Agora parece um deserto
Que ronda meu peito e lábios

Lembrança colhida em pedaços
Sementes que a vida plantou
Guardei em mim teus abraços
Pequenos vestígios de amor

A mesa ainda está posta
Regalos da noite passada
Carinho e desejo em compotas
Vinho e uma taça quebrada

A cópia da chave da porta
Esquecida no canto da pia
É como saudade que corta
E dói em silêncio sem anestesia

Sergio-Veleiro

domingo, 9 de agosto de 2009

foto Av. Dom Luiz

Vamos ser sinceros. Ninguém, eu disse ninguém, consegue saber com desenvoltura onde fica a Rua Marcos Macedo em Fortaleza. Já assumi publicamente minha incapacidade de entender onde essa rua se localiza e até que não sou ruim de orientação, mas a Rua Marcos Macedo me tira do sério.

Andando de carro pela cidade eu passo por ela, da janela vejo a placa: Rua Marcos Macedo. De repente, 2 horas depois, resolvendo coisas pela cidade olho de novo e vejo o nome: Rua Marcos Macedo. Como assim? Ela não tinha ficado lá atrás?

Algumas ruas são assim, têm o dom de irritar a gente. Parece que elas é que estão em movimento no mapa da cidade, ficam trançando nosso caminho a ponto de enlouquecer qualquer GPS!

Então, cansado desse baile de logradouros do qual participo mesmo sem querer participar, fui investigar a vida dessas ruas, a origem, o que fizeram no passado para se tornarem o que hoje são. Quem são essas ruas com nomes compostos de pessoas que desconheço e que nos atormentam?

Partindo desse pressuposto básico que algumas ruas de Fortaleza se movem pesquisei e descobri algumas particularidades sobre a Rua Marcos Macedo. Passo agora a revelar a vida, a obra e a desgraça da Marcos Macedo.

A Rua Marcos Macedo era uma criança feliz. Alegre, saltitante e sorridente. Mas tinha uma prima linda, exuberante, cheia de graça e gracejos chamada Prof. Dias da Rocha. A beleza e carisma da prima a irritavam profundamente, mas pensava na sua meninice: um dia essa loura vai se dar mal, hei de ver essa filhinha de papai com o nome sujo no SPC, ou quem sabe estrelando um episódio de nas garras da patrulha. E sendo entrevistada pelo Eli Aguiar!

Longe da inveja da prima, a Dias da Rocha crescia feliz. Como não era boba, casou com um senador e foi morar do ladinho dele. Mas mulher moderna que era, não quis muito encosto, exigiu logo uma casa separada do Senador. Nada de muita intimidade, dizia. Tempos modernos meu rei, tempos modernos. Dizia e sorria na loirice encantadora de sua beleza. Resultado: fincou moradia ali, na primeira rua paralela à Avenida do Senador Virgílio Távora.

Tomada de ódio da prima a Marcos Macedo fez de tudo pra destruir esse casamento. Pediu ajuda aos anjos e santos, mas nada acontecia. A prima Dias da Rocha continuava feliz, vivendo pertinho do seu marido, ali, no paralelo em região nobre da cidade, para desespero da prima Marcos Macedo.

Desiludida, cansada e já bem envelhecida de ódio e inveja, um belo dia a Marcos Macedo tropeçou com um alto representante da Igreja. Pediu socorro, pediu clemência. Luiz era o seu nome, mas gostava de ser chamado de Dom. Foi assim que Dom Luiz, acolheu a Marcos Macedo com sua imensa generosidade e disse: vem morar comigo, esquece tua prima, dar-te-ei casa, comida e moradia pertinho de mim.

Nesse passo, envelhecida e marcada pela inveja, porque a inveja marca feito tatuagem na alma da pessoa, a Marcos Macedo foi parar ali, pertinho da Dom Luiz.

Mas como ainda resistia uma fagulha de inveja, a inveja sempre resiste, antes de morrer a Marcos Macedo pediu: quero ser uma rua paralela a tua, meu Dom, igualzinha a minha prima.

Dessa forma, a Marcos Macedo passou a residir ali, na primeira rua paralela à Dom Luiz.

E assim é a história dessas ruas, cheia de enredos, tramas, ódios, vinganças. E claro, como convém às primas, muita inveja. Sabendo de tudo isso nunca mais me perdi na cidade, agora sei direitinho onde fica a Dias da Rocha e a Marcos Macedo.

Veleiro

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Zé Renato em Fortaleza


Só quem já foi no clube BNB pode saber como é o local, impossível descrever aquela arquitetura antiga, aqueles lustres da década de 70 empoeirados e esquecidos, mesas dispostas na frente do palco num salão grande com direito a laterais e colunas e colunas atrapalhando a visão do palco.

Fiquei numa mesa lá atrás, longe dos detalhes do palco, mas pelo menos nada de coluna na minha frente. O som que não estava lá essas coisas também não conseguiu atrapalhar a beleza da noite. Enquanto o Marcos Caffé cantava comentei na mesa que merecia um som melhor, mas em compensação a voz precisa do Zé Renato que tudo transforma haveria de transformar aquele som disforme em algo possível e real.

Uma amiga do Recife que estava com a gente na mesa comentou que era muita coincidência descobrir o show do Zé Renato em Fortaleza logo no final de semana que ela estava aqui de passagem, e eu com meus botões pensei quantos anos separavam a noite de ontem com a última vez que o Zé Renato aqui esteve.

Enfim, Zé Renato sobe ao palco e começa a cantar. O som que estava muito ruim com o Marcos Caffé de repente melhora consideravelmente com o timbre suave e preciso do Zé... sem pressa, sem engasgos ele dispara a cantar: "estou amando loucamente a namorandinha de um amigo meu..."

E a noite começa. Suspensão, silêncio e suspiros. A voz, o carisma, a doçura do intérprete, ali no palco, muito bem acompanhado no palco por Castilho e Romulo Gomes, nosso amigo m musical Romulo Gomes!

Entre jovem guarda e grandes sucessos de sua carreira a noite avança, vixe como tem Zé ! É o Zé cantando Zé Ketti e Jackson do Pandeiro. Zé cantando todas as canções possíveis de seu repertório construído com todo cuidado, com muito cuidado por tantos anos e anos, sempre fiel ao seu bom gosto musical, fiel à sua competente verve de compositor.

Tão bonito, tão bonito o moço cantando coração de papel. "Se você pensa que meu coração é de papel, não vá pensando pois não é..."

Não é não Zé, não é. Tanto que a saudade apertou quando você cantou aquele velho e gostoso samba do grande amor... e eu me levantei atrás da tua irmã!

Sim, verdade. Nessa hora fui atrás de memeca pelo clube, entre mesas brancas e salão escuro eu procurava a pequena, a pequena responsável pela produção do show e pelo meu bem querer, mas ela sumiu... Mentira!

Logo hoje que não tenho mais a pedra no meu peito, sou bom sujeito, não carrego mais andor, e acho graça COM o grande amor!

De longe vejo, no compasso do samba buarqueano na voz do Zé que é quase Chico no quesito unanimidade, vou ao encontro dela: memeca! E beijos e abraços apertados como deve ser, como vai sempre ser.

E volto para a minha mesa feliz e feliz e feliz com o abraço da irmã enquanto no palco o Zé já se prepara para mais uma canção de arrebatar o coração, de quem tem coração e para que tem no coração aquela flor preciosa que mora no alto da colina chamada amor.

Pouco a pouco o show avança com o Romulo Gomes fazendo uma bela participação no vocal e o show já quase se anuncia o final... ahhhhhhhh faz o público ávido de mais e mais.

Mas antes disso, bem antes, o ponto alto do show foi sem dúvida quando de repente, não mais que de repente, entre uma e outra jovem guarda, o moço do palco resolve surpreender e cantar uma bem antiga... nas primeiras notas a lembrança real, incrivelmente real do lp da novela Roque Santeiro.

E ele lá cantando tepidamente as minhas recordações musicais: "vê quantas voltas tem que dar o amor... Jogou o laço e se prendeu, o inesperado aconteceu, a vez da caça e a hora do caçador."

Vai ser você! vai ser você!

Nas mesas e corações o arrepio na alma. E um coro emocionado cantando baixinho: "vai ser você!"

Linda letra, linda melodia, linda canção que me acompanhou por anos e anos no lp da novela Roque Santeiro (o segundo), a platéia já rendida e na palma da mão. Daí em diante ele pode cantar até axé ou funk com a platéia completamente domesticada à luz embriagadora da beleza dessa canção.

Fim do show, depois do bis e bis. Ainda em estado de graça e feliz volto pra realidade e pra saudade de bons shows como esse aqui em Fortaleza.

Veleiro

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Pedido


Quando bater a saudade
Escreve
Escreve uma carta
Um bilhete
Um recado
Um e-mail
Um desaforo
Um destempero
Um desconsolo
Um desespero
Escreve um poema
Um soneto, uma valsa
Um versinho que seja
Meia palavra
Meia palavra já basta
Escreve uma vírgula
Dois pontos, três pontos
Umas exclamações!!!
- sinto tanta falta das tuas exclamações...
O ponto final não escreve não
Não quero
Deixa o ponto final para o final dos tempos
Escreve, vai
Num papel de pão
Num pedaço de jornal
Num computador qualquer
Quando bater a saudade
Não deixa passar
A vida é breve
O amor é breve
A saudade é breve
Mas a palavra não.
Sergio-Veleiro

sexta-feira, 1 de maio de 2009

No mundo dos movimentos: o silêncio


De quantas verdades precisamos para viver? Quantas são as mentiras realmente necessárias?

Ainda não encontrei respostas, mas me pergunto todo dia como é conviver com a dialética da verdade e da mentira. Por que somos tão suscetíveis às pequenas e breves verdades do cotidiano? Somos ou não somos feitos de barro? Parece que não. Ou pelo menos para alguns esse barro é delicado demais, um sopro de sinceridade e o mundo vai ao chão.

Ultimamente ando mais impaciente com essa coisa da mentira social, a pequena e suave mentira para manter as relações sociais vivas. E olha que um ariano impaciente já é uma completa redundância. Mas a vida segue e nem sempre é possível agir como a natureza manda. Sim, eu controlo minha natureza. Nem sempre consigo, mas tento. E quando não consigo, tomo café. O café me deixa mais quieto.

Nada me desarma mais do que a verdade. Tudo vai embora diante da verdade. Raiva, desapontamento, mágoa, indignação. Qualquer desentendimento se resolve diante da verdade. Não sei explicar a origem disso, só sei que comigo é assim. Talvez pelo estado de fragilidade que o outro se coloca quando resolve contar a verdade. Acho que desperta em mim um sentimento quase paterno de acolhimento. Mas de repente, muitas vezes sem necessidade alguma, lá vem a mentira toda sorrateira...
  • Eu tenho uma idéia que um dia ainda coloco em prática de forma irreversível. É simples como água. Não me pergunte nada que não esteja preparado para ouvir a resposta. Vai que eu estou naqueles dias de ariano e resolvo responder de forma objetiva e clara... Não confundir com grosseria. Em ocasiões que a verdade poderá causar constrangimentos ou mágoas eu prefiro a melhor atitude que já inventaram no mundo dos movimentos: o silêncio.

Veleiro

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

A arte de voltar - show do Marcos Sacramento


Depois do show cancelado, Marcos Sacramento volta à Fortaleza e faz um estupendo show. Sim, não dá pra dizer que foi um show comum com início, meio e fim. Foi um show completo, pontuado pelo medo e a emoção. Como seria a reação do público? Como seria a primeira canção e a primeira vez que ele encararia talvez o mesmo público de antes? E se o som resolvesse de novo pifar?

Creio que tudo isso passou pela cabeça do cantor porque no burburinho da platéia havia essa interrogação: e se...? Mas o que se sentia, entre os convidados para esse retorno, não era a dúvida do dissabor, era a certeza de que dessa vez tudo seria diferente. Mesmo que o teatro tombasse e a iluminação sumisse e o som desaparecesse. Tudo seria diferente. E foi.

Eu falei teatro? Sim, dessa vez o show foi no teatro do Dragão do Mar e não no anfiteatro, espaço aberto sujeito às intempéries da natureza. Com o espaço fechado, ar condicionado e o jogo de luzes contando a história do show, tudo ganhou uma nova dimensão. Uma crônica contada em versos, música e cantoria. Um enredo conduzido por um narrador seguro e consciente de seu papel de comandante. De seu rosto percebia-se aos poucos a máscara da preocupação cair, e o semblante foi ficando, ao passar de cada canção, mais sereno. Em um determinado momento disse: "alguns aqui sabem como esse show é importante para mim". E era sim. E ele levou a sério essa coisa de retornar ao lugar de antes e reconstruir o que ficou pra trás. Poderia ter seguido adiante, tantos não fazem assim? Mas não.

Ele quis que fosse diferente. Que aquele mesmo público que voltou para casa carregando no bolso o desolamento do último show voltasse agora com o corpo e a alma cheia de alguma coisa maior, que não se diz o nome, mas que se sente. E sentindo, até pode em palavras vulgares, dizer por aí: sabe, ontem no show do Marcos Sacramento, eu fui feliz.

Eu nem esperava, mas ele queria tanto que ela, a felicidade, voltasse com a gente, que ela, tinhosa como sempre foi, cedeu. E voltou. Voltou com cada um que ali esteve. Reconheci isso no rosto dos cúmplices na saída do teatro. Na saída, revi dois amigos que foram conferir o show depois do burburinho da última apresentação. Eles disseram: você viu? Como incrédulos ao que foi apresentado na narrativa das luzes, no ambiente no palco, na sonoridade dos músicos. Que violões! Que pandeiro! Que enredo!

E o narrador lá, cantando como sempre cantou, totalmente envolvido com a narrativa de seus personagens. Aqui e ali um agradecimento à platéia que às vezes esquecia de parar de bater palmas como aconteceu depois que ele cantou A Rosa (do Chico Buarque) ou Vela no breu ( do Paulinho da Viola e Sergio Natureza), talvez esta, a música mais aplaudida. Pela letra, pela canção, pela interpretação do Marcos Sacramento.

No fim, no bis, a apoteose da canção do Herivelto Martins dizendo "vestido de seda, capote de forro, civilizarei o morro".

Não, não é bem assim, não foi dizendo, deixa eu corrigir... in-ter-pre-tan- do. Um cantor-ator no palco. Um cantor que sabe a diferença entre cantar e interpretar. E faz os dois, quando quer e bem quer para delírio e surpresa da platéia. Ora junto, ora separado, o ator e o cantor se misturaram. Na medida certa, sem exageros ou caricaturas.

O que eu posso dizer para concluir esse relato sobre o show do Marcos Sacramento é que foi um show único. Sim, essa palavra define tudo. Sabe quando você ouve alguém cantar e sabe na hora quem é aquele artista? É assim, no estilo, no jeito, na escolha do repertório, na interpretação. Tudo ali é autêntico e único. E essa é sua maior virtude.


Veleiro

domingo, 23 de novembro de 2008

A 4 Vozes, Fred Martins e... Rubi


Não posso deixar de registrar o show de ontem das meninas do A 4 vozes no BNB - Fortaleza. Caramba, que coisa impressionante! Um espetáculo estético, musical, emocional. Quando a matriarca subiu ao palco e cantou com as filhas/neta foi algo assombroso de tão bonito. E a beleza das meninas, a vivacidade na interpretação de cada canção, tudo muito divino e maravilhoso, como diria o Caê.

Antes delas o Fred Martins fez mais uma apresentação. Outra bela apresentação do Fred que já tinha se apresentado no centro cultural do BNB na semana passada. Mas claro, o surpreendente da noite foi mais uma vez... o Rubi. Um espetáculo a apresentação desse rapaz. A força do canto, a força da voz, do corpo, essa coisa toda é algo que nos transporta para uma outra dimensão. Quando ele desceu do palco para cantar a capella foi muito envolvente, como se ele quisesse abraçar todos ali cantando: "se perder pra diante, atrás é jardim, se perder pra diante, atrás é jardim... o aprendizado do amor..."

Foi aplaudidíssimo. Recebeu da platéia em doses imensas tudo que nos ofereceu lá de cima do palco: muita energia boa, muita emoção, muita felicidade de estar ali dividindo com ele aquele momento. A impressão que ele passa cantando é que cada apresentação é única e última. Como se fosse pela última vez, como se estivesse se despedindo e se reconstruindo para uma próxima aproximação. Quem nunca tinha visto ficou em estado de choque. Como se precisasse de tempo, tempo, tempo para cuidar da boa semente que ele deixou plantada ali no coração de cada um dos presentes.

No final do show, um dedo de prosa, e a gentileza do artista se confundindo com o que há de mais humano: a generosidade, o abraço apertado a cada um que chegava e a certeza de que tudo pode estar no centro do seu coração.

Noite memorável. Uma amiga já indo embora disse: "estou com a impressão de que estou deixando algo." E estava. Estava deixando um pedaço da alma grudada no abraço forte e sincero do Rubi.

Veleiro

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Quando Clara Nunes morreu...




Quando Clara Nunes morreu todos nós morremos um pouco. Clara, Clarinha, Claridade. Clara Nunes iluminava aquela casa nos anos 70 e início dos anos 80 aqui em Fortaleza. Reinava absoluta. Minha mãe a ouvia com verdadeira devoção cantando Cartola, Dolores, Candeia, Nelson Cavaquinho, Antônio Maria, Elton Medeiros e tantos e tantos outros.

Clara enfeitava aquela casa com as cores mais inesperadas. Sombria, irradiante, fugidia, violeira, apaixonada, ensandecida, desarvorada, feliz, feliz, feliz. E só. A solidão de Clara cantando era coisa que me impressionava. Só no meio do salão. Só nas águas do mar. Só com seu realejo no jardim da solidão. Só com seu povo do morro, das gerais e da favela. Só no meio da feira gritando: “ê banana ouro, ê banana prata”. Só, mastigando palavra por palavra aquele forró do Sivuca que para mim é o mais bonito de todos: “moleque, sai daqui, me deixa trabalhar”.

No fundo somos todos sozinhos, minha mãe era só naquele momento em que ouvia Clara Nunes. Perdia-se em pensamentos com um sorriso no rosto ouvindo Clara desabafar cheia de esperanças: “por isso agora vou viver cantando/ porque chorando/ secou quase todo o meu pranto/ eu sei bem que mereço/ mas não esperava tanto...” Sim, ninguém esperava tanto. Eu mesmo que aprendi a esperar esperando não esperava tanta tristeza naquele dia 02 de abril de 1983.

A casa ficou em luto. De certa forma a morte de Clara revelou pela primeira vez o peso da morte na nossa família. Meu pai ficou circunspecto, monossilábico naquele sábado que era geralmente o seu dia de abrir sorrisos. Minha mãe nada dizia. Fechou-se em sua solidão e como quem não acreditava na imagem anunciada da televisão saiu da sala e foi pegar os lps. Separou cada um com muito cuidado, retirou-lhes de cima uma poeira imaginária e os lambeu vigorosamente com os olhos. Não disse uma palavra sequer. Sentada na cadeira de balanço embalou Clara como se fosse sua irmã. A irmã que nunca tivera.

Chorava mudamente e ninguém tinha coragem de interromper aquele instante, nem sequer para consolá-la. Mamãe não queria consolo, não queria a tristeza de nossos olhos cúmplices, não queria nenhuma compreensão que de pouco adiantaria. Ela queria Clara de volta. Era só isso que ela queria. Desde a internação até o dia de sua morte, mamãe só queria Clara de volta.

Ela ouviu ali mesmo, naquela cadeira de balanço, cada lp. Um a um. Ouvia tudo em silêncio, um silêncio tão doído que nunca mais me saiu da cabeça aquela imagem. Algumas vezes ela encostava a cabeça no espaldar da cadeira e soluçava, ouvindo Clara entoar: “quero recordar aquela velha casa/ quantas flores no meu jardim.../ quero recordar, não importam essas lágrimas/ às vezes faz bem chorar.” E tal como na canção, mamãe chorava. Por ela. Pelas recordações que Clara lhe enviava nas suas canções. Pela irmandade que havia entre aquelas mulheres órfãs que tiveram de enfrentar a vida muito cedo. Clara como operária na fábrica de tecidos, mamãe como secretária num colégio de padres.

A noite veio e de madrugada, já deitado, ouvi meu pai chamando minha mãe. Era a primeira vez que alguém lhe dirigia a palavra. Não ouvi sua resposta, mas vi papai passar sozinho para o quarto. Com a porta fechada ainda dava para ouvir o som da sala onde ficava a radiola. Pensei em ir lá, mas o que dizer? Não saberia dizer nada diante de seus olhos verdes cheios de lágrimas silenciosas. Apurei um pouco a audição na escuridão do quarto e ouvi Clara cantar: “Dei um aperto de saudade no meu tamborim/ molhei o pano da cuíca com as minhas lágrimas/ dei o meu tempo de espera para a marcação/ e cantei a minha vida na avenida sem empolgação/ Vai manter a tradição, vai meu bloco tristeza e pé no chão.”

Nesse momento me encolhi todo. Sentado que estava de um pulo voltei pra cama. Abrir aquela porta era quebrar o tempo de espera, o tempo de desacerto, o tempo de descompasso entre a despedida de Clara e a dor de mamãe. Tentei dormir, mas era inútil. Eu que sempre fui apaixonado por música ficava do lado de dentro do quarto esperando a próxima música. Eu não sabia, mas esperar a próxima música era da minha natureza. Até hoje ainda é. Tentava adivinhar qual seria a próxima canção ouvindo os primeiros acordes ou no silêncio do momento em que mamãe tirava um disco e colocava outro.

Desse modo, naquela noite de tantos significados, consegui identificar a música preferida de cada lp. Ao trocar o disco ela guiava a agulha para uma canção que nem sempre era a primeira do lado A. Muitas vezes era a quarta ou quinta do lado B. E depois ouvia repetidamente a mesma canção, várias e várias vezes.

No lp Claridade sei que “O sofrimento de quem ama” era uma das mais tocadas. Era a primeira que ela escolhia e dizia assim: “os meus olhos vertem lágrimas/ meu coração arde em chamas/ ai como é doloroso o sofrimento de quem ama/ a minha alma reclama/ sinto meu coração pelo ardor das chamas dilacerar/ por uma fingida mulher que não sabe/ que não sabe amar...” Depois ela ouvia Tudo na Vida é Ilusão e Juízo Final.

No lp Canto das três raças, Ai quem me dera, uma valsa linda do Vinícius: “ai quem me dera ouvir o nunca mais/ dizer que a vida vai ser sempre assim/ e finda a espera ouvir na primavera/ alguém chamar por mim...” Logo em seguida ela escolhia Lama, do Mauro Duarte. Depois surgia Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito com Tenha Paciência e, depois, Canto das três raças do Paulo Cesar Pinheiro e Mauro Duarte.

A noite passou veloz. Por baixo da porta eu sentia que o dia já estava amanhecendo. Vinha uma pontinha de claridade e o som da voz de Clara no lp mais festejado por mamãe que tinha curiosamente o nome mais bonito de toda a língua portuguesa: Esperança, de 1979.

Mamãe ouvia esse lp repetidamente, todas as canções. Todas mesmo. Suspeito que foi através dele que mamãe renasceu naquela noite e se banhou de manjericão, como dizia a primeira música do lp “Banho de Manjericão” do Paulo César Pinheiro e João Nogueira.

Lembro que abri a porta do quarto quando esse lp já estava tocando pela quarta ou quinta vez. A música que estava tocando era Obsessão (Mirabeau e Milton de Oliveira) uma música linda que dizia assim: “você roubou meu sossego/ você roubou minha paz/ com você vivo a sofrer/ sem você vou sofrer muito mais...” Depois vinha Linha do Mar do Paulinho da Viola e Apenas Um Adeus do Paulinho Diniz. Quando o disco chegou na música do Candeia e Jaime, chamada Minha Gente no Morro, eu não agüentei. Chorei do alto dos meus 10 anos de idade. E ainda hoje é uma música que me emociona profundamente: “ontem estive no morro e voltei chorando/ morro sem malandro que já tem senhor/ vejam só! / Disseram que compraram o morro/ estão derrubando barracos de zinco/ estão se acabando/ pra morar no morro tem que ser doutor...”

Na verdade, eu não sabia, meu pai não sabia, meus irmãos tampouco sabiam que mamãe havia se reinventado a partir do repertório de Clara. Clara cantava o que mamãe sentia ou pensava ou queria sentir ou não sentia ainda, mas gostava tanto que passava a sentir. E por isso, a morte de Clara representou uma pequena morte de mamãe. Nesse momento foi quando me dei conta que viver é morrer um pouquinho todo dia, é ir se deixando aos poucos nas pessoas, nas coisas, nos gestos, nas palavras.

Por dentro mamãe morreu naquele dia 02 de abril, e quando o dia estava amanhecendo, como sempre acontece, ela foi se ressuscitando. Velou a noite inteira o seu próprio corpo e amanheceu, por conta de Clara, mais viva que antes. Olhando de lado, me viu encostado no canto da porta chorando por conta daquela emoção que a música me trazia, por causa dela sentada ali naquela cadeira a noite toda, por conta de Clara ter ido embora tão cedo e de uma forma tão banal. Naquela noite eu fui cúmplice e a meu modo velei o corpo de Clara e o corpo de mamãe.

A família foi acordando aos poucos. Nessa hora ouvíamos bem alto Abrigo de Vagabundo do Adoniran Barbosa. Já não mais chorávamos. Ouvíamos cúmplices os versos: “minha maloca a mais linda que eu já vi/ hoje está legalizada ninguém pode demolir/ minha maloca a mais linda desse mundo/ ofereço aos vagabundos que não têm onde dormir...”

Hoje ainda ouvimos Clara, eu aqui na minha casa e ela lá na mesma casa de sempre. Dia desses soube que ela mandou consertar a radiola e ouviu todos os lps da Clara numa só tacada. Liguei pra confirmar e ela confirmou. Quando estamos juntos e toca uma música da Clara, ela me dá uma olhada com aqueles dois olhos verdes e parece que o tempo não passou e eu ainda sou aquele menino que se emociona ouvindo música.

Sergio-Veleiro

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

ir ao cinema no Iguatemi... que dureza!


Algumas coisas eu não entendo, não entendo, não entendo e não entendo. E isso para um sujeito racional e sistemático é quase uma agressão. Por exemplo. Eu não entendo como o cinema do Iguatemi pode desrespeitar tanto o consumidor e ninguém dizer ou fazer absolutamente nada. Não entendo porque você tem que ficar 40 a 50 minutos em pé na fila do cinema Multiplex do iguatemi para comprar um mísero ingresso para assistir a um filme. É inaceitável nos dias de hoje você sair de casa para ir ao cinema e saber que vai ficar cerca de 50 minutos em pé numa fila como se estivesse pedindo um grande favor ao shopping, ao dono do cinema, a seja lá quem for.

Recentemente fiquei 50 minutos na fila (mais uma vez!) para comprar um ingresso no cinema do Iguatemi (Multiplex). Motivo? Só havia dois caixas funcionando, sendo que um era para dar prioridade a idosos, gestantes e etc. Ou seja, a fila imensa e só um atendente. É desesperador. Você olha para o relógio e vê que o filme está perto de começar e nada da fila andar. Aceita cartão de crédito e débito na bilheteria, então já viu, passa cartão, dá erro, passa de novo, imprime, assina, digita a senha... E a multidão na fila feito gado à espera de que mesmo? Ah, o filme...

Ir ao cinema hoje virou teste de paciência. Dessa última vez, além dos 50 minutos em pé na fila ainda aconteceu um fato novo. Fui para outra fila, a da pipoca (mais uma fila!). Ao ser atendido a moça informa: não tem coca cola, senhor, não tem refrigerante, está em falta. E mais não disse. Nessa hora você sente um idiota por ter saído de casa. Hoje não é meu dia, pensei. Mas insisti, desci, comprei refrigerante, subi, comprei pipoca e enfim... o filme.

Antes de entrar na história do filme, claro, duas moças chegam atrasadas e começam a conversar como se estivessem no puleiro de suas casas. Ai, ai... Penso que elas poderiam morrer engasgadas com as suas pipocas, seria tão bom... Mas se eu não matei as pessoas na fila, a moça da bilheteria e a moça que avisou: não tem coca-cola, senhor, não poderia matar essas duas. Não primeiro que as outras. É preciso respeitar a fila!

Troco de lugar. Respiro aliviado: ninguém sentado à frente. O filme (re)começa, o filme se arrasta, o filme termina. Sim, eu não devia ter ido ao cinema. Se não fosse a companhia agradável, sempre é bom estar bem acompanhado, eu juraria nunca mais voltar ao Multiplex do Iguatemi. Mas... quem resiste a um bom filme no cinema? Aquele cheirinho de pipoca e coca cola (zero cal, por favor) por perto? E comer ameindoim com chocolate entre um e outro gole de coca cola (zero cal, por favor). Hummm... tão bom, tão bom.

Como ir ao cinema é loteria e eu não tenho tido muita sorte nesse tipo de aposta, quem sabe se eu jogar na megasena a coisa não muda?

P.S. Qual filme eu vi? Tormenta de lágrimas, lágrimas das tormentas...algo assim. Richard Gere e Diane Lane. Lindos atores interpretando um texto horrível de tão clichê e repetido. Desrecomendo! Esse não vale nem em DVD.

P.S. Tentei comprar ingresso virtualmente. O cadastro é tão invasivo que recuei. Pediu CPF, RG, nome do pai, nome da mãe, endereço completo, telefone, número do cartão de crédito, dígitos de segurança, etc. Só faltou mesmo a senha do banco.

Veleiro

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

E a paixão pelos livros é eterna...



Minha primeira paixão sempre foi literária. A música veio depois, muito depois. Primeiro veio o verso. Depois a prosa, o livro, os rascunhos, os pedaços de papel escondidos debaixo da cama, anotações de um diário imaginário. Adiantando no tempo vieram enfim as cartas. Correspondências trocadas com uma infinidade de pessoas que eu nunca cheguei a conhecer. Guardo até hoje essas correspondências juvenis, amizades que nasceram através da palavra. Palavras que me rodeavam e me descreviam enquanto eu tentava entender o mundo e as coisas do mundo.

Assim, o fascínio pelo livro, pela palavra escrita, sempre andou por perto, e até hoje ainda viajo para vasculhar os sebos das cidades e me divirto sozinho mexendo e comprando livros antigos, velhinhos, mas cheios de histórias de seus antigos possuidores. Dedicatórias incríveis, histórias contadas pelos donos de sebos, curiosidades de outros amantes do livro.

Escrevo tudo isso para dizer que guardo algumas recordações marcantes de livros que adquiri por essa vida. E uma delas tem tudo a ver com a M Música. Foi através da M Música, grupo virtual e real de compositores e apaixonados por música, que eu descobri o livro de poesias da Etel Frota chamado Artigo Oitavo. Já falei inúmeras vezes sobre esse livro e já escrevi não sei quantos poemas, sempre tomado pela emoção que me assombra toda vez que o releio.

Escrevi uns versos depois da primeira leitura. Lia sem pressa, mas tão vorazmente que a velocidade da fome me atropelava. Depois juntei os cacos do que sobrou e me recompus lendo novamente sem pressa e um pouco mais saciado. A fome ainda existe e peço a Deus que ela nunca se afaste, mas hoje é diferente, não só hoje, a cada dia eu sei que é uma fome diferente.

Quando Etel fez aniversário na Ilha do Mel mandei esses versos pelo Iso Fischer para a aniversariante. Ele leu e imagino (gosto às vezes de imaginar) que causou uma certa emoção no momento da leitura. Uma fisgada que seja. Uma pontada ao perceber como a palavra sempre cumpre seu destino de acender alguém distante e desconhecido. Gosto de pensar que alguém ao ouvir ou ler esses versos percebeu também o tamanho do enlace entre o que aqui reside e o que mora lá naquele livro chamado Artigo Oitavo.

Não tenho muito contato com a Etel. Só um ou outro email aqui e acolá. Estivemos juntos em Curitiba quando ela organizou em sua casa um sarau poético. Iso entrou com tudo cantando e tocando ao piano nossas parcerias musicais. Etel conversou, mostrou parcerias, leu um poema do Silvio (um radialista e poeta de Curitiba). Foi uma noite memorável com o Juarez, Enéas, Vicente e outros.

Tempos depois, eu e Etel, tentamos uma parceria em verso, não deu certo. Mandei pra ela duas estrofes por email e ela concluiu. No final das contas, percebendo que não era o que eu esperava, ela me botou na parede. Depois de longos emails explicativos chegamos a uma conclusão: cada um faria um poema independente. Ela recolheu os versos dela e fez seu poema, sozinha. Virou um belo poema. O meu ficou inconcluso até hoje. Um dia termino...

Bom, depois disso algum tempo passou e voltei a reler o Artigo Oitavo e novos versos vieram, mas aqueles da primeira leitura ainda me rondavam. Sabia que eles não me deixariam nunca em paz se não fizesse algo por eles, se não transformasse aquele momento em algo que não fosse a prisão do papel.

Peguei os versos, contei num email imenso o que significou o livro da Etel e o conteúdo do livro (com alguns poemas transcritos) para o meu parceiro-irmão-amigo Eduardo Franco. Pedi que ele lesse o email e os versos com calma e cuidado.

Queria que esses versos virassem canção e só ele poderia entender exatamente o que eu sentia, afinal ele já me achou não sei quantas vezes em versos que faço pra ele, pensando nele, nas nossas conversas e no som que ele faz.

E tantas e tantas vezes ele soube traduzir em canção o que eu escrevia que não tive dúvida. Algum tempo depois o Eduardo me mandou um email dizendo que a canção estava pronta, depois de alguns ajustes com a gravação, chegamos ao resultado final.

Quem já leu o Artigo Oitavo vai entender melhor os versos, quem ainda não leu pode se deixar levar na canção e tentar imaginar o que tem ali naquele livro de tão especial.

Artigo VIII - Os Estatutos do Homem
Fica decretado que a maior dor sempre foi e será sempre
não poder dar amor a quem se ama
e saber que é a água que dá à planta o milagre da flor.
Thiago de Mello

Artigo Oitavo
(Dedicado a Etel Frota)


Com dor e alegria
De cada pedaço
Eu leio seu livro
Passo a passo

Fronteira de rio
Cipó em laço
Barco vazio
Peixe escasso

Eu sou esse rio
E é nele que eu passo
Estou por um fio
Feito de aço

Se é dor imprecisa
Coração embaça
Se beijo Luisa
Clara me abraça

Riso de picadeiro
Palhaço sem graça
Choro traiçoeiro
Circo e fumaça

Debaixo das lonas
Véu e argamassa
O mundo de Jonas
Hoje me enlaça

Tomo cortisona
E o peito ameaça
Asma que ronda
Tristeza que passa

Se é dor imprecisa
Coração embaça
Se beijo Luisa
Clara me abraça

Você me aprisiona
Raposa de caça
Loba materna
Poeta da raça

Mulher da caverna
Irmã da cachaça
Vinho de taberna
Conhaque de graça

Volto à caserna
E me alinhavo
Estou a perigo
No artigo oitavo

Se é dor imprecisa
Coração embaça
Se beijo Luisa
Clara me abraça


Veleiro

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

sábado, 23 de agosto de 2008

Os livros e a... música!


Morar só é uma aventura. Todo dia você se pergunta quem é você e do que de fato você gosta. Essas perguntas não são conscientes, mas estão camufladas no dia a dia. Respondendo a segunda, descobri que a coisa que eu mais gosto no mundo é ouvir música, mas eu sempre fiz isso na casa dos meus pais, pensei. Ocorre que lá o pouco tempo que ficava em casa era dividido com a família, irmãos, mãe, pai, avó etc... Morando só eu me vi sozinho vasculhando o que tinha em casa para fazer (sou muito caseiro) aí descobri um mundo de cds que eu tinha e muitos eu só havia ouvido uma única vez... Coisa que a solidão faz também é ficar na internet desbravando o que nos fascina e foi assim que encontrei gente do país inteiro vidrado em música. Como uma coisa leva a outra, seis meses depois eu estava no Rio de Janeiro num bar lotado de amigos virtuais que viraram amigos reais e me acompanham até hoje. Gente do país inteiro unido pela boa música brasileira. Quando viajo pra qualquer lugar do país escolho um dia para rever esses amigos e trocar informações e coisas musicais. Hoje estou ouvindo os sambas do Paulo Vanzolini, coisa mais linda desse mundo, com a família Buarque de Holanda cantando em várias faixas dos cds. Mas a primeira paixão não foi musical... foi a dessa foto aí, mas isso é pra outro post.

Veleiro

sexta-feira, 15 de agosto de 2008



Uma tarde-noite maravilhosa com amigos maravilhosos aqui em casa. Muita música boa, café, amizade, chá, carinho, pães e muito companheirismo. Isso é só um pouco dessa turma. Esse post é em homenagem a mais nova integrante: Luciana.

Seja bem vinda, Luciana.

domingo, 10 de agosto de 2008

O chá



Como tudo na minha vida, primeiro eu namoro de longe, depois chego mais perto, depois de algum tempo antes mesmo de saborear... vou ler tudo que existe sobre o assunto. Foi assim também com minha nova mania. O chá. Existe chá pra tudo. Enfim, como diz a Syomara, agora eu virei um chausídico!

Veleiro

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Para Lulu dos sete véus...

De minha parte eu cansei de cerimônias e rituais de despedida. Cansei de me preparar para as datas certas, as horas exatas, para celebrar a ausência com flores brancas e lágrima na voz.

Não lembro muito bem como tudo aconteceu, só sei que fui ficando cada vez mais vazio. E o comboio que me levava também cada vez mais vazio, tão vazio o bichinho. No meu comboio sai mais gente do que entra! Fiquei assustado quando percebi isso. Um dia me desesperei. Não desce mais ninguém, gritei. E toca o comboio pra frente sem parar em nenhuma estação. Foi então, nesse instante, que descobri porque não entrava mais ninguém... Eu não parava, a vida não parava, tudo estava sempre em movimento.

O tempo passou, a vida correu, e certa vez o meu comboio diminuiu a velocidade, não sei direito se ele parou em alguma estação ou se só diminuiu a velocidade. A porta estava fechada, mas a janela aberta. Gosto de imaginar que nesse dia você entrou pela janela. E que teve muito trabalho para entrar! Tinha fivela no cabelo, lembro bem desse detalhe, e um sorriso azul nos lábios. Sentou na minha frente com seu jarrinho de flor lilás no colo e ficou me olhando, me olhando, mas não disse nada. Nada! Nem uma palavrinha sequer. E nem precisava.

Veleiro