quarta-feira, 9 de julho de 2008

Ser feliz pode ser...

Uma conquista diária e constante. Reconhecer o sabor da vida, das coisas mais simples às mais complexas!

Quanto ao talento em ser feliz... só a prática dirá, quem se habilita?

terça-feira, 8 de julho de 2008

Uma canção chamada Madrigal

Tudo que eu quis nessa vida foi encontrar a canção certa para o momento certo. A canção e o momento, a canção e o tempo, a canção e o espaço, a canção e a distância, a canção e o encontro. E reunir tudo isso num só momento é coisa rara, muito rara. E é dessa raridade que quero falar agora. Sei que é preciso buscar muito, muito mesmo, prestando atenção nas frestas da alma, na luminosidade que sai das venezianas que nos cercam e deixar o corpo disponível para perceber a canção certa quando ela chegar.

Ouvindo Madrigal na voz do Adolar Marin, que é uma composição do Fernando Franco em parceria com o Zé Edu, eu tive essa certeza de que estava diante da canção certa no momento certo. Resolvi parar um pouco a vida por aqui hoje para escrever sobre essa canção porque ela pedia, porque ela queria, porque ela me exigia palavras que justificassem sua existência no meu dia a dia. E essa exigência muda, silenciosa, me corroia por dentro e me paralisava os sentidos. Como escrever sobre um afeto tão impalpável e tépido feito “o sol de clarear e a hora de ver o nascer das margaridas?”

Eu sei, eu sei que não se justifica o sentimento, nem a emoção, nem a vontade compulsiva de ouvir, ouvir e ouvir a mesma canção por horas, por horas, por horas. Isso é coisa que acontece e é também sorte de quem procura.

Então, nada que eu diga aqui vai justificar coisa alguma, nem vai ser motivo de vaidade dos autores, nem do cantor, nem de ninguém. É que as palavras a isso não se prestam e minha intenção nem de longe é massagear o ego de ninguém, nem elogiar o que é manifestamente belo. Até porque, como dizia o poeta pernambucano, “a beleza é triste”, e eu não estou aqui para falar de tristeza, mas de fragilidades e incertezas.

Escrevo para falar de mim mesmo, para que eu possa seguir em frente, para que eu possa desocupar o espaço que essa canção preenche no meu peito e pensamento e ficar pronto para uma nova canção. Não é despedida, não é um adeus. É só uma reverência, um convite para que ela vá ocupar um outro lugar, um lugar mais sublime, o lugar das canções inesquecíveis.

Deixar essas impressões aqui é como dizer para mim mesmo que não foi em vão, que não vai haver esquecimento e que a memória não vai roubar de mim a delicadeza desse momento. E mesmo quando desatar o nó e mesmo quando a boca já não tiver sabor de hortelã, essa música vai existir, e esse madrigal vai continuar a cantar por dentro, por dentro, por dentro. Por dentro da derme, dos vasos, das veias, dos órgãos, da alma.

Eu preciso conhecer por dentro essas igrejas da alma e voltar a rezar pela vida e pedir bem por todos nós. Mas como a canção anuncia, tanta pressa na vida me fez esquecer da própria vida, e eu escuto esse verso para me desapressar e me desatar de tantos nós.

Uma vez eu disse que essa canção por muitos dias foi a minha oração matinal e é verdade. Era acordar e deixar o violão/voz do Adolar invadir o apartamento enquanto passava o café nas primeiras horas da manhã.

Eu que desacreditei de Deus logo depois que meu pai morreu, voltei a rezar e a primeira prece do dia era essa canção. “Destino é outro dia”, não é mesmo?

Enquanto a água aquecia e o café passava, eu conversava com Deus, uma conversa só minha cheia de silêncios. Silêncios só meus que eram interrompidos por mim mesmo cantarolando “tanta pressa na vida, da gente esquecida, viver é se dar, me dou conta que ainda há outra saída de frente pro mar.”

E entre um e outro silêncio eu ouvia as cordas do violão do Adolar, a melodia do Fernando Franco entranhada na letra do Zé Edu conversando comigo, num pacto matinal, num acordo de cavalheiros nas primeiras horas da manhã, enquanto o café era servido.

Eu que ainda procuro minhas igrejas encontrei nas “igrejas da alma” a oração que eu precisava e que por certo já me procurava em forma de poesia, em forma de canção. Madrigal é e vai sempre ser um pedaço dessas manhãs, um gole desse café e mesmo que o tempo passe (e ele sempre passa), essa canção vai ter um pedaço de mim entranhada na sua sonoridade, misturada nos acordes do Fernando Franco, fundida na letra do Zé Edu e soprada na voz do Adolar.
Veleiro
P.S. Posso enviar a mp3 para quem quiser ouvir essa canção.

Pergunta do dia

ser feliz ou não é questão de talento?

cartas para a redação!

Veleiro

Cinco cds excelentes que estou ouvindo ultimamente

1. Inclassificáveis - Ney Matogrosso

2. Rubi - Paisagem Humana

3. Luanda Cozetti - young and lovely

4. Rubi - Infinito Portátil

5. Simone e Zélia Duncan - Ao vivo

Todos excelentes, acima da média, só música boa...

Veleiro

segunda-feira, 7 de julho de 2008


Nosso grupo, nossa turma, nossa irmandade por essa e por mais tantas outras vidas.


Nosso amigo Charles, que volta e meia participa dos encontros dominicais.

Generosidade

Quando o Érico me pediu para escrever sobre generosidade o primeiro pensamento que me veio foi: estou completamente atarefada e sem possibilidade de fazer além do que já me propus. Disse isso a ele, que prontamente me respondeu para fazê-lo na paz, ou seja, quando estivesse de bem comigo mesma. Pois bem, inicio por aqui. Generosidade significa ser generoso. Generoso é aquele que gosta de dar; que perdoa com facilidade; nobre, leal, valente. Tudo certo, mas para mim também significa estar em paz consigo mesmo. Como? Explico. Estando em paz consigo mesmo você pode ser generoso consigo, e a generosidade predispõe um contato prévio e uma experiência própria para por fim disseminar-se entre o alheio. Sendo generoso consigo você compreenderá o real significado da palavra e poderá exercer essa prática tão única, singela e grandiosa que é a de ser generoso(a) e praticar a generosidade. O limite próprio da generosidade é o seu limite, conhecendo-se você poderá ser mais ou menos generoso, de acordo com a escolha. Por própria experiência aprendi a ser generosa apenas quando me libertei das amarras do alheio, olhei para dentro de mim, aceitei-me e fui generosa com este ser que vos escreve. A partir de então vivi em maior comunhão com o outro, com suas dores e suas alegrias. Porque ser generoso também é aceitar a alegria do outro sem querer retê-la apenas para si, é aceitar e compartilhar da alegria alheia. Outra ligação que podemos fazer com a generosidade é a do desapego. Desapego material e emocional. Desapegar-se de algo ou de alguém também significa ser generoso, apropriando-se da generosidade de fora para dentro. Assim completa-se o ciclo. Ser generoso consigo e desapegar-se do externo. Creio que consegui expressar em palavras o que significa ser generosa para mim. É um ciclo que nunca termina, de dentro para fora e de fora para dentro, já dizia aquela bela letra da canção. E é esse o ciclo que alimenta a vida, a paz e o Deus que mora em mim e que saúda o Deus que habita em você! Namastê!

domingo, 6 de julho de 2008

A cidade que eu sou

Enquanto alguns estão indo, eu estou ficando, cada vez mais ficando, cada vez menos indo... Vou ficando porque essa é minha maneira de existir, vou existindo e vivendo na cidade onde nasci. A minha cidade não é uma cidade grande, nem chega a ser pequena, é a cidade do tamanho ideal, do tamanho dos meus sonhos que já não são tantos quanto eu gostaria que fossem.

Muitas vezes penso em partir da minha cidade para outra cidade e viajo como se não fosse voltar, como se não tivesse raízes na cidade que foi ficando para trás, cada vez mais para trás. Até que, sem esperar, acordo em outra cidade sentindo falta da minha cidade, da minha aldeia, do lugar de onde eu vim e me encontro e me reconheço.

É, eu sinto saudade da minha cidade, uma saudade tão doída que volto correndo, coração aos pulos, olhos sedentos pra ver a minha cidade. Às vezes penso que a cidade está dentro de mim e quando estou fora da minha cidade estou também um pouco fora de mim. Outras vezes percebo que estou apenas existindo na minha cidade, existindo como coisa que tem vida própria, só existindo. E vou existindo assim, sem pensar, fingindo para mim mesmo que existir é como viver, quando na verdade a existência é só uma parte da vivência, a primeira parte talvez, a que antecede tudo.

Existir é uma forma de viver sem sentir, é viver anestesiado, seguindo caminhos que levam ao lugar do ninguém, que é o lugar para onde todos estão indo na minha cidade. E por isso, às vezes, eu me sinto sozinho na minha cidade, um pouco indo também para lugar nenhum, um pouco anestesiado, um pouco sendo ninguém.

Na minha cidade é assim, as pessoas estão existindo, apenas existindo. E já não sabem mais o que é viver. Elas existem numa intensidade branda, como convém a quem só sabe existir e já não tem mais tempo para outra coisa que não seja existir. Nesses momentos penso em sair da minha cidade e procurar outra cidade, outra aldeia, ou apenas um lugar no alto da colina ou no meio do mato, onde a cidade seja apenas o que eu quiser que seja. Ou não seja. Seja apenas o que ela quiser que seja, e não seja nem cidade, nem aldeia, nem colina, nem mato. Apenas um lugar.

Um lugar onde eu possa viver e não somente existir, onde eu possa começar tudo de novo: preparar a terra, plantar sentimentos, esperar, e depois colher. E quem sabe fazer o meu próprio pão e beber o meu próprio vinho.

Aí é que percebo que essa cidade existe dentro de mim e não importa que fora de mim os carros buzinem alucinadamente e as pessoas tropecem nos seus sonhos como coisa que não fosse importante. Dentro de mim essa cidade existe e o sol nasce mais cedo e eu preparo meu próprio café, em silêncio. Um silêncio tão intenso que a cidade nem percebe que eu amanheci dentro da cidade que eu sou.

Veleiro