terça-feira, 7 de setembro de 2010

A felicidade é como a flor do caju




Não é triste o lugar onde eu me encontro, nem é turva a nuvem do meu caminho. Às vezes, fico quieto olhando uma pedra ao chão caindo e um cajueiro balançando e suas folhas me sorrindo...

A minha felicidade é como a flor do caju que se abre no sol da manhã, sem pressa, como quem cumpre o seu papel no teatro da natureza: despojar-se ao sol, à chuva, ao vento, à lua.

A minha felicidade é assim: semente de um roseiral que nunca esmorece, rígida e encorpada, fechando-se em pétalas de prece às intempéries da vida e em pétalas de fé no desamparo da morte.

E porque o tempo não passa no relógio celeste, a minha felicidade é secular, pétala solerte, que se dissolve no murmurar de um vento agreste. Sei que ela, a minha felicidade, na palma da mão cabe e sei também que por entre dedos me foge. Fugaz, fugidia é minha felicidade, louca varrida e doida curada que some no meio do dia e me escapa no cair da tarde.

- E o sol se pondo por detrás das colinas do outono -

Mas logo em seguida ela empina e sai pela rua vadia, rondando de casa em casa até o amanhecer do dia, no primeiro sinal da madrugada. Minha felicidade é dançarina, balé de cores suaves, e voa clandestina, no bico cinzento das aves.

Veleiro

sábado, 4 de setembro de 2010

A tal da leitura obrigatória...


Acho a frase ‘leitura obrigatória’ um conceito falso. A leitura não deve ser obrigatória. Devemos falar de prazer obrigatório? Por quê? O prazer não é obrigatório, o prazer é algo buscado. Felicidade obrigatória!

A felicidade, nós também buscamos. Fui professor de literatura inglesa por vinte anos na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires e sempre aconselhei a meus alunos: se um livro os aborrece, larguem-no; não o leiam porque é famoso, não leiam um livro porque é moderno, não leiam um livro porque é antigo.

Se um livro for maçante para vocês, larguem-no; mesmo que esse livro seja o Paraíso perdido -- para mim não é maçante -- ou o Quixote -- que para mim também não é maçante. Mas se há um livro maçante para vocês, não o leiam: esse livro não foi escrito para vocês.

A leitura deve ser uma das formas da felicidade, de modo que eu aconselharia a esses possíveis leitores do meu testamento -- que não penso escrever --, eu lhes aconselharia que lessem muito, que não se deixassem assustar pela reputação dos autores, que continuassem buscando uma felicidade pessoal, um gozo pessoal.

É o único modo de ler.

Jorge Luís Borges

Luanda Cozetti e a espera...



Quando estive em Lisboa, ano passado, fui conhecer o café à brasileira por conta dessa canção. Sentei perto da estátua de Fernando Pessoa, tomei um café, e por uns instantes esperei essa moça do vídeo.

Ela não sabia que eu estava lá, mas não saber fazia parte, queria que fosse casual. Infelizmente depois soube que naquele dia ela estava fazendo shows em outra cidade perto de Lisboa. Não importa, o que importa mesmo é que eu fui lá e esperei por ela, como imaginei um dia fazer.

Lulu, moça da flor lilás, você continua sendo o meu amor 84, Charing Cross Road, i love you. Qualquer dia voltarei para repetir tudo de novo.

sábado, 21 de agosto de 2010

Ah esse Albert...

Uma frase do Camus para pensar :

Jovem, eu pedia às pessoas mais do que elas me podiam dar: uma amizade contínua, uma emoção permanente.

Hoje sei pedir-lhes menos do que podem dar: uma companhia sem palavras...

Bom dia porque hoje é sábado!

:-)

sábado, 14 de agosto de 2010

Sobre o amor-feliz e outros quases...

Alguém já disse que a felicidade nos preenche de tal forma que não temos tempo para os versos. Sempre pensei que isso fosse pura balela, mas não é.

Um bom verso carece de uma dose de sofrer, mas não é sofrimento no sentido ruim da palavra, senão todos os morimbundos dos hospitais do mundo seriam grandes poetas e estariam nesse momento escrevendo suas odes...

Eu acho é que a felicidade anestesia um pouco aquela angustiazinha disfarçada de melancolia, aquele bichinho matreiro que nos corrói por dentro.

É que a vivência do amor-feliz nos toma tempo e quase nunca ficamos verdadeiramente sozinhos. Não digo que o sujeito simplesmente deixa de escrever, não deixa, não deixa. Mas quando escreve não mostra nem por um decreto!

É que o amor-feliz é muito constrangedor quando vestido em palavras.

Vinícius, o poeta que mais amou na vida, criava as mais loucas situações para se colocar em estado de amor-saudade, amor-veneração, amor-distante, amor-impossível, amor-dedicação. .. Mesmo quando o seu amor era presente, real, possível.

De tanto não saber lidar com o amor-feliz casou e se separou quase dez vezes. Não era o amor que acabava, era a felicidade que chegava e ele não sabia lidar com ela.

Ser feliz é muito difícil. Muito, muito mesmo. É muito mais fácil carregar o fardo do mundo nas costas, os pesares e os dissabores da alma pendurados no peito feito honraria.

E eu adoro uma melancoliazinha de beira de fogão, uma tristezinha vespertina, e até tenho saudade delas, mas hoje não consigo arranjar tempo para recebê-las. O amor-feliz veio me visitar e ficou por aqui.

Mas o verso, o verso mesmo... aquele que a gente arrisca a mostrar, só tenho feito muito de vez em quando. É que sou muito linear, não tenho montanha russa na alma, essa minha alma de ariano que precisa ter as quatro patas no chão. E vou repetir uma coisa que só um ariano pode entender: "como dói ser ariano."

Ando lendo coisas do budismo para controlar um dos meus vícios mentais: a raiva. Não parece, mas eu sou um vulcão, quase à beira da erupção. Mas como convém aos loucos, quase ninguém percebe. Por isso que sou vidrado nessa palavra tão significativa da língua portuguesa: quase.

:-)

sábado, 31 de julho de 2010

Amor de mãe é amor de cuidado.


A morte é o fluxo da vida e sabemos disso, é a lei da natureza... Mas como dói uma dor estranha essa da partida e de saber que nunca mais veremos uma pessoa amada. Laços de raiz, vincos de eterno amor e preocupação, porque a gente ama e se preocupa quando nossos pais envelhecem. E parece que foi ontem!

Aquele vigor no corpo, a voz firme, a mão forte do castigo, o dedo rígido dizendo não, não, não. De quantos nãos precisamos para entender que a vida não é do jeito que queremos, a vida é só o que fazemos e plantamos e não o que esperamos dela?

Quantos abraços e olhares silenciosos de nossos pais disseram: "Toma cuidado, meu filho, toma cuidado".

E quantas vezes rimos de tanto zelo? Quantas vezes pensamos em dizer: "Toma cuidado minha mãe, toma cuidado" e não dissemos? E quantas vezes choramos pelo tanto de zelo que temos e mesmo assim a gente sempre acha pouco? Amor de filho pra mãe é sempre amor em débito. Nunca chegamos perto do amor de mãe. Mas tentamos! E nessas tentativas é que nos confortamos.

Vai, não foram tantas noites assim que ficamos acordados por ela... E, no entanto, quantas noites mesmo ela dormiu sem a lembrança do filho ou sem dizer "toma cuidado, meu filho, toma cuidado". Algumas bem poucas, talvez...

Então ela dormiu, mas ainda bem que antes ela viu você, e talvez em pensamento tenha dito pela última vez pra você tomar cuidado. Amor de mãe é amor de cuidado.

Escrevi esse texto a um amigo que havia perdido a mãe. Mas é também uma homenagem a todas as mães, inclusive a minha mãe que como na foto ainda está presente me dizendo de longe ao pé do ouvido toda noite antes de dormir: "toma cuidado, meu filho, toma cuidado".

quarta-feira, 28 de julho de 2010


"Se queres ver-me novamente, procura-me sob teus sapatos.

Dificilmente saberás quem sou ou o que significo;

Não obstante serei para ti boa saúde

E filtrarei e comporei teu sangue.

E se não conseguires encontrar-me, não desanimes;

O que não está numa parte está noutra;

Nalgum lugar estarei à tua espera."

(Whitman)

terça-feira, 27 de julho de 2010

Sonya Prazeres


Tem gente que nasce com uma estrela na testa, tem gente que nasce com uma sorte danada no bolso, tem gente que sabe investir em ações, tem gente que cumpre rigidamente horário e regras, tem gente que sonha em largar tudo e dar umas voltas na pracinha arrastando um lençol branco com uma garrafa de cachaça na mão, tem gente de todo jeito.

Tem gente que não chora com comercial de televisão, mas se acaba em lágrimas vendo Cinema Paradiso, tem gente que tem um Totó na cabeça, um carteiro e um poeta debaixo do braço, e acredita no amor Florentino Ariza.

Tem gente que sonha em tomar uma caipirinha à beira mar e mora longe, tem gente que mora quase vizinho do mar e esquece de ir lá conferir a belezura dos verdes mares bravios. E ainda vem aqui escrever que tem vontades.

Mas tem também gente que parece que no berço tropeçou na chupeta e muito cedo caiu no liquidificador da vida e não tem tempo de se lamentar, nem de cumprir regras, nem de investir na bolsa, nem de lustrar a estrela da sorte, nem de sentir saudade do mar. Tem gente que tem o mar em si (parodiando o Léo Nogueira que tem o mar em mim).

Tem gente que nem precisa molhar o pé na beira do rio para saber de onde ele vem, de que dor, de que distância, de que terra, de que mar... (grande Nelson Motta!).

Tem gente que nem precisa do oceano para navegar, para mergulhar fundo e colher os submersos. Tem gente que colhe os submersos com uma palavra, ou um jeito de compor aquela canção que é e vai para sempre ser a canção recolhedora de submersos.

Tem gente que nem precisa das ondas, nem dos ventos, nem dos barcos, porque tem dentro da alma uma maré minguante, outra crescente, outra nova, outra cheia... Cheia de luz, raios e tempestades.

Tem gente que é sol, é lua, é da vida e da morte. Ora amiga, ora desarvoradamente inimiga, na inimizade leal dos desentendimentos e desenganos que estão todos prestes a cair.

Tem gente que nasceu com a Primeira Estrela. Tem gente que tem um encontro marcado comigo em Oxford Street.

(Para Sonya Prazeres, uma das mais incríveis compositoras desse país, autora de várias canções de sucesso na voz de Ney Matogrosso, Luhli, Lucina, Zélia Duncan e outros).

domingo, 25 de julho de 2010

Tu

Quase não tenho fome
longe de ti
é outro tipo de coisa
mas não é fome
nem sede
nem ansiedade
é precisão mesmo.

Tu, o alimento
tu, a água pura
tu, o benfazejo
tu, o chá de erva
tu, meu sexo em riste
tu, meu corpo satisfeito.

Veleiro


Eu nunca me encantei com o palhaço, no entanto, sempre fui tomado de afeição e carinho pelo artista que fazia o personagem do palhaço. Enquanto o malabarista me impressionava, a trapezista me dava calafrios, o palhaço me emocionava.

Não pela caricatura, não pela roupa extravagante, não pela pintura no rosto, não pelos tombos... Mas pelo olhar. Porque eu olhava profundamente no seu olho toda vez que chegava perto. E lá dentro, por trás da máscara de tinta, por trás da careta, eu via um artista de verdade.

Um artista que para fazer a sua arte precisava ter muito mais que habilidades e treinos (como era o caso do malabarista e da trapezista), precisava ter alma de artista, precisava mergulhar na vivência humana, buscar a infância perdida daqueles olhares cúmplices da platéia.

Para mim o palhaço era o verdadeiro mágico, seus tombos falsos, seus risos de ocasião, a gargalhada da platéia... Tudo aquilo fazia parte daquele menino que eu via lá dentro dos seus olhos e era esse menino que me hipnotizava, era com esse menino residente nos seus olhos que eu conversava.

Muitas vezes em silêncio, calado, que é meu jeito de conversar com as pessoas que me emocionam. Então, para mim tanto importava como ele estava vestido ou como seu rosto estava pintado. Eu queria ver aquele menino escondido nos olhos do palhaço. E rir dele e rir com ele.

Veleiro

sábado, 24 de julho de 2010

Saudade


Tenho um querer bem grande aos distantes, amor que nasce da impossibilidade de ter algumas pessoas por perto. Amor que nasce dessa dificuldade. Amor que se mistura às palavras que atropelamos no meio do caminho de um e-mail apressado e não percebemos o estrago. Amor que nasce desse estrago, dessa cicatriz.

Se fosse ao vivo a gente bem ouviria o coração dizer: vai devagar com o andor, lê as letras miúdas estampadas no meu peito que diz "cuidado é frágil".

Mas assim de longe, na distância que separa os setembros, a gente precisa lembrar que o silêncio distante é diferente do silêncio ao alcance da mão. O silêncio distante é um abismo. E a gente sai por aí tocando a vida, feito fome que nasce quando a boca está perto da comida. E até desiste de olhar o abismo com medo de ser tragado por ele.

Para lidar com o silêncio distante só escrevendo que é o meu modo estranho de aproximar a boca ao pé do ouvido. Para lidar com o silêncio distante, quando a carta não chega ou volta sem aviso de recebimento, a gente se aproxima dos que estão por perto e busca o aconchego em quem sem faz abrigo. E busca segurança em quem abre a porta e oferece café. E fica feliz, mas sente saudade.

Eu sofro de saudade crônica. De quem eu quero bem, de quem me faz escrever horas a fio, de quem parece entender o caminho incerto e vulnerável da poesia. Eu tenho saudade de quem me apresenta boas canções, de quem me indica um bom livro, de quem me escreve contando algo banal do seu cotidiano e consegue modificar o meu dia.

Ás vezes uma palavra basta para acender uma luz aqui. Uma palavra que nunca mais ninguém falou. Uma só palavra...

Eu tenho saudade de quem canta com o sotaque luso umas coisas brasileiríssimas e tem uma flor lilás no cabelo e um sorriso encantador.

Eu tenho saudade de quem adora receber as pessoas na sua cidade e arma algum encontro só pra celebrar a visita, fazendo o visitante se sentir querido ou mais querido por um dia.

Eu tenho saudade de quem não para nunca de trabalhar e não tem tempo para quase nada, a não ser para ligar no meio de uma viagem a trabalho só para te desejar feliz aniversário.

Eu tenho saudade de muita gente, e uma saudade especial de quem vai buscar a gente no aeroporto e senta no piano do restaurante do aeroporto para tocar e cantar canções. Só pela surpresa, só para fazer você se sentir especial e bem vindo na cidade.

Eu tenho saudade de quem abre a sua casa e faz uma roda de poesia e música e escreve um livro de poesia que nunca mais saiu da minha cabeça e que faço questão de colocá-lo num lugar de destaque na minha estante. Ali dentro tem uns versos que me pegam na alma, e eu sei exatamente a causa, o motivo e a circunstância...

Eu tenho saudade de quem descobre sua sobremesa preferida e quando você chega na cidade dessa pessoa, ela leva a sobremesa num isopor até o lugar onde você está. No meio de um restaurante, no meio de um monte de gente. E daí? Não é pra ninguém entender, é pra sentir. E nunca mais esquecer.

Eu tenho saudade de encontrar pessoalmente um amigo muito amigo e ficar pensando: será que vai ser muito estranho se eu me levantar agora e der um abraço? Só por abraçar mesmo, de agradecimento pelo mundo de cartas, discussões e compreensões. Discutir com pessoas inteligentes é sempre enriquecedor. Ser compreendido por elas é ainda melhor.

Enfim, eu tenho saudade, por isso escrevo. E muito, e muito.

Veleiro

Um dia especial


Um dia recebi um poema que me denunciava. Era meu retrato exposto em forma de versos. Era um retrato visto por olhos bons. Mas sendo o autor quem era, logo percebi que o poema também era letra de canção e com melodia de Alexandre Cueva e Affonso Moraes. O poema na verdade era uma canção.

Alguns meses depois estive em São Paulo, e num bar lotado, os compositores foram ao palco cantar essa canção. Impossível descrever esse momento. Fiquei imóvel, mudo, numa emoção absolutamente inédita para mim.


Veleiro Perdido
Léo Nogueira
 
Sou um veleiro estranho
Roubo do mar seu tamanho
Pra caber na imensidão
E, quando me sinto inteiro,
Sou agulha num palheiro
No celeiro da criação
 
Sou um veleiro perdido
Que só encontra sentido
Quando perde a direção
Não creio na fé que sinto
A fé é um marujo faminto
De uma outra embarcação
 
Eu sou somente um veleiro
Cruel, porque verdadeiro
E mais fiel que um cão
Fiel a um dono tirano
Meu amigo e oceano
A quem chamo coração
 
Sou um veleiro estranho
Às vezes, no mar me entranho
Pra que a solidão me banhe
E, quando me sinto parco,
Lembro que sou só um barco
No colo da nave-mãe



domingo, 18 de abril de 2010

Pensamento do dia.

Saiu pra passear perdido e voltou encontrado. Deixou o sorriso triste na primeira esquina, a angústia no banco da praça. Ser feliz dói?

Veleiro

sábado, 22 de agosto de 2009

A lição do sonho possível






Há uns 4 anos atrás estive numa cidade do interior do Ceará chamada Brejo Santo. É uma cidade que fica depois de Juazeiro, Barbalha, Mauriti, já quase divisa com Pernambuco. Um amigo que era juiz numa cidade vizinha havia me convidado para passar uns dias por lá, para tomar alguns tragos e conversar sobre uns assuntos importantes, uma vez que a esposa estaria viajando e poderíamos beber até cair.


Fui. Na noite da minha chegada já ficamos em Brejo Santo (uma cidade próxima da cidade que ele estava morando - Jati) para as amenidades de sempre. Rodamos pela cidade de Brejo Santo, e ele brincando dizia: “é o lugar mais desenvolvido que tem por perto”. A cidade era pequena, tinha uma rodoviária, umas lojas de comércio, um hotel municipal e uma churrascaria onde nos abancamos e ficamos a beber e a conversar sobre assuntos vários.


No dia seguinte, já em Jati, ele tinha uma audiência pela manhã. Como fiquei com o tempo livre fui visitar a minúscula cidade do interior do Ceará onde ele exercia a jurisdição. Entrei nos botecos, olhei o artesanato local e fiquei flanando pela cidade enquanto a audiência acontecia. Caminhando por uma das ruas entrei na farmácia (a única da cidade) e fiquei conversando com a atendente de 20 e poucos anos de idade.


Ela era morena, tinha olhos castanhos, meio amendoados, e guardava um sorriso nos gestos. Havia naquela moça uma alegria camuflada de tristeza, um jeito de quem guarda a esperança num lugar muito escondido da alma. Digo isso porque havia no seu olhar um mundo de ilusões quando me perguntou: “O senhor é da cidade grande?” Respondi que era de Fortaleza. Nesse momento ela mirou o chão.


Fiquei conversando sobre o tempo, a cidade, o calor, o sertão, a chuva que não vinha e outras coisas comuns. Ela foi respondendo e me contando um pouco sobre o seu dia a dia. Era balconista da farmácia, morava com o pai viúvo, tinha 6 irmãos e 3 irmãs e todos já tinham ido para São Paulo, dizia isso com uma pontada de desprezo. Uns voltaram e ficaram em Pernambuco, dois morreram por lá, outros voltaram para Jati sem nada nas mãos ou nos bolsos, e assim foi me contando a tragédia familiar de pobreza, miséria e esperança que não deu em nada.


Quando fiz movimento para ir embora, pois já passava do meio dia, ela disse: “Já vai? Fica mais um pouco”. Respondi afirmativamente, mas no fundo já não queria ir. Foi quando perguntei: “Você tem vontade de conhecer Fortaleza?” Ela me olhou fixamente e respondeu categórica: “Não, nunca pensei nisso, acho que não mesmo.” Fiquei surpreso. Então, perguntei: “Você tem algum sonho?”.


Dessa vez ela nem titubeou, não olhou para o chão, nem fez pose categórica. Disse serenamente como se saboreasse cada palavra: “Meu sonho, meu sonho mesmo, é um dia morar em Brejo Santo.” Brejo Santo, veja só. Aquela cidadezinha antes de Jati que eu havia conhecido na noite anterior... Desejei boa sorte e parti.

Por muito tempo pensei nessa menina, nos meus pensamentos e recordações ela ficou conhecida como a menina do sonho possível. Com ela aprendi uma lição que carrego até hoje: o melhor sonho é aquele que está quase ao alcance da mão, ali bem perto e que a gente pensa muito antes de dar o primeiro passo. Como a distância breve entre Jati e Brejo Santo.


Assim, passei a desejar, a esperar e a sonhar com o que está bem próximo de mim, quase ao alcance da mão, porque sonho, sonho mesmo, é o que a gente vai conquistar, mais cedo ou mais tarde, o resto é delírio.


Será que a menina do sonho possível já está morando em Brejo Santo? Desconfio que sim. Se duvidar deve ser a gerente da maior farmácia da cidade dos seus sonhos: Brejo Santo. Que Deus a proteja, para sempre.

Veleiro

sábado, 15 de agosto de 2009

Pequenos vestígios de amor


Um cheiro ficou pelo quarto
Era do amor que se despedia
Na moldura do porta-retratos
Não ficou nem uma fotografia

No armário o espaço aberto
O lugar onde as roupas ficavam
Agora parece um deserto
Que ronda meu peito e lábios

Lembrança colhida em pedaços
Sementes que a vida plantou
Guardei em mim teus abraços
Pequenos vestígios de amor

A mesa ainda está posta
Regalos da noite passada
Carinho e desejo em compotas
Vinho e uma taça quebrada

A cópia da chave da porta
Esquecida no canto da pia
É como saudade que corta
E dói em silêncio sem anestesia

Sergio-Veleiro

domingo, 9 de agosto de 2009

foto Av. Dom Luiz

Vamos ser sinceros. Ninguém, eu disse ninguém, consegue saber com desenvoltura onde fica a Rua Marcos Macedo em Fortaleza. Já assumi publicamente minha incapacidade de entender onde essa rua se localiza e até que não sou ruim de orientação, mas a Rua Marcos Macedo me tira do sério.

Andando de carro pela cidade eu passo por ela, da janela vejo a placa: Rua Marcos Macedo. De repente, 2 horas depois, resolvendo coisas pela cidade olho de novo e vejo o nome: Rua Marcos Macedo. Como assim? Ela não tinha ficado lá atrás?

Algumas ruas são assim, têm o dom de irritar a gente. Parece que elas é que estão em movimento no mapa da cidade, ficam trançando nosso caminho a ponto de enlouquecer qualquer GPS!

Então, cansado desse baile de logradouros do qual participo mesmo sem querer participar, fui investigar a vida dessas ruas, a origem, o que fizeram no passado para se tornarem o que hoje são. Quem são essas ruas com nomes compostos de pessoas que desconheço e que nos atormentam?

Partindo desse pressuposto básico que algumas ruas de Fortaleza se movem pesquisei e descobri algumas particularidades sobre a Rua Marcos Macedo. Passo agora a revelar a vida, a obra e a desgraça da Marcos Macedo.

A Rua Marcos Macedo era uma criança feliz. Alegre, saltitante e sorridente. Mas tinha uma prima linda, exuberante, cheia de graça e gracejos chamada Prof. Dias da Rocha. A beleza e carisma da prima a irritavam profundamente, mas pensava na sua meninice: um dia essa loura vai se dar mal, hei de ver essa filhinha de papai com o nome sujo no SPC, ou quem sabe estrelando um episódio de nas garras da patrulha. E sendo entrevistada pelo Eli Aguiar!

Longe da inveja da prima, a Dias da Rocha crescia feliz. Como não era boba, casou com um senador e foi morar do ladinho dele. Mas mulher moderna que era, não quis muito encosto, exigiu logo uma casa separada do Senador. Nada de muita intimidade, dizia. Tempos modernos meu rei, tempos modernos. Dizia e sorria na loirice encantadora de sua beleza. Resultado: fincou moradia ali, na primeira rua paralela à Avenida do Senador Virgílio Távora.

Tomada de ódio da prima a Marcos Macedo fez de tudo pra destruir esse casamento. Pediu ajuda aos anjos e santos, mas nada acontecia. A prima Dias da Rocha continuava feliz, vivendo pertinho do seu marido, ali, no paralelo em região nobre da cidade, para desespero da prima Marcos Macedo.

Desiludida, cansada e já bem envelhecida de ódio e inveja, um belo dia a Marcos Macedo tropeçou com um alto representante da Igreja. Pediu socorro, pediu clemência. Luiz era o seu nome, mas gostava de ser chamado de Dom. Foi assim que Dom Luiz, acolheu a Marcos Macedo com sua imensa generosidade e disse: vem morar comigo, esquece tua prima, dar-te-ei casa, comida e moradia pertinho de mim.

Nesse passo, envelhecida e marcada pela inveja, porque a inveja marca feito tatuagem na alma da pessoa, a Marcos Macedo foi parar ali, pertinho da Dom Luiz.

Mas como ainda resistia uma fagulha de inveja, a inveja sempre resiste, antes de morrer a Marcos Macedo pediu: quero ser uma rua paralela a tua, meu Dom, igualzinha a minha prima.

Dessa forma, a Marcos Macedo passou a residir ali, na primeira rua paralela à Dom Luiz.

E assim é a história dessas ruas, cheia de enredos, tramas, ódios, vinganças. E claro, como convém às primas, muita inveja. Sabendo de tudo isso nunca mais me perdi na cidade, agora sei direitinho onde fica a Dias da Rocha e a Marcos Macedo.

Veleiro

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Zé Renato em Fortaleza


Só quem já foi no clube BNB pode saber como é o local, impossível descrever aquela arquitetura antiga, aqueles lustres da década de 70 empoeirados e esquecidos, mesas dispostas na frente do palco num salão grande com direito a laterais e colunas e colunas atrapalhando a visão do palco.

Fiquei numa mesa lá atrás, longe dos detalhes do palco, mas pelo menos nada de coluna na minha frente. O som que não estava lá essas coisas também não conseguiu atrapalhar a beleza da noite. Enquanto o Marcos Caffé cantava comentei na mesa que merecia um som melhor, mas em compensação a voz precisa do Zé Renato que tudo transforma haveria de transformar aquele som disforme em algo possível e real.

Uma amiga do Recife que estava com a gente na mesa comentou que era muita coincidência descobrir o show do Zé Renato em Fortaleza logo no final de semana que ela estava aqui de passagem, e eu com meus botões pensei quantos anos separavam a noite de ontem com a última vez que o Zé Renato aqui esteve.

Enfim, Zé Renato sobe ao palco e começa a cantar. O som que estava muito ruim com o Marcos Caffé de repente melhora consideravelmente com o timbre suave e preciso do Zé... sem pressa, sem engasgos ele dispara a cantar: "estou amando loucamente a namorandinha de um amigo meu..."

E a noite começa. Suspensão, silêncio e suspiros. A voz, o carisma, a doçura do intérprete, ali no palco, muito bem acompanhado no palco por Castilho e Romulo Gomes, nosso amigo m musical Romulo Gomes!

Entre jovem guarda e grandes sucessos de sua carreira a noite avança, vixe como tem Zé ! É o Zé cantando Zé Ketti e Jackson do Pandeiro. Zé cantando todas as canções possíveis de seu repertório construído com todo cuidado, com muito cuidado por tantos anos e anos, sempre fiel ao seu bom gosto musical, fiel à sua competente verve de compositor.

Tão bonito, tão bonito o moço cantando coração de papel. "Se você pensa que meu coração é de papel, não vá pensando pois não é..."

Não é não Zé, não é. Tanto que a saudade apertou quando você cantou aquele velho e gostoso samba do grande amor... e eu me levantei atrás da tua irmã!

Sim, verdade. Nessa hora fui atrás de memeca pelo clube, entre mesas brancas e salão escuro eu procurava a pequena, a pequena responsável pela produção do show e pelo meu bem querer, mas ela sumiu... Mentira!

Logo hoje que não tenho mais a pedra no meu peito, sou bom sujeito, não carrego mais andor, e acho graça COM o grande amor!

De longe vejo, no compasso do samba buarqueano na voz do Zé que é quase Chico no quesito unanimidade, vou ao encontro dela: memeca! E beijos e abraços apertados como deve ser, como vai sempre ser.

E volto para a minha mesa feliz e feliz e feliz com o abraço da irmã enquanto no palco o Zé já se prepara para mais uma canção de arrebatar o coração, de quem tem coração e para que tem no coração aquela flor preciosa que mora no alto da colina chamada amor.

Pouco a pouco o show avança com o Romulo Gomes fazendo uma bela participação no vocal e o show já quase se anuncia o final... ahhhhhhhh faz o público ávido de mais e mais.

Mas antes disso, bem antes, o ponto alto do show foi sem dúvida quando de repente, não mais que de repente, entre uma e outra jovem guarda, o moço do palco resolve surpreender e cantar uma bem antiga... nas primeiras notas a lembrança real, incrivelmente real do lp da novela Roque Santeiro.

E ele lá cantando tepidamente as minhas recordações musicais: "vê quantas voltas tem que dar o amor... Jogou o laço e se prendeu, o inesperado aconteceu, a vez da caça e a hora do caçador."

Vai ser você! vai ser você!

Nas mesas e corações o arrepio na alma. E um coro emocionado cantando baixinho: "vai ser você!"

Linda letra, linda melodia, linda canção que me acompanhou por anos e anos no lp da novela Roque Santeiro (o segundo), a platéia já rendida e na palma da mão. Daí em diante ele pode cantar até axé ou funk com a platéia completamente domesticada à luz embriagadora da beleza dessa canção.

Fim do show, depois do bis e bis. Ainda em estado de graça e feliz volto pra realidade e pra saudade de bons shows como esse aqui em Fortaleza.

Veleiro

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Pedido


Quando bater a saudade
Escreve
Escreve uma carta
Um bilhete
Um recado
Um e-mail
Um desaforo
Um destempero
Um desconsolo
Um desespero
Escreve um poema
Um soneto, uma valsa
Um versinho que seja
Meia palavra
Meia palavra já basta
Escreve uma vírgula
Dois pontos, três pontos
Umas exclamações!!!
- sinto tanta falta das tuas exclamações...
O ponto final não escreve não
Não quero
Deixa o ponto final para o final dos tempos
Escreve, vai
Num papel de pão
Num pedaço de jornal
Num computador qualquer
Quando bater a saudade
Não deixa passar
A vida é breve
O amor é breve
A saudade é breve
Mas a palavra não.
Sergio-Veleiro

sexta-feira, 1 de maio de 2009

No mundo dos movimentos: o silêncio


De quantas verdades precisamos para viver? Quantas são as mentiras realmente necessárias?

Ainda não encontrei respostas, mas me pergunto todo dia como é conviver com a dialética da verdade e da mentira. Por que somos tão suscetíveis às pequenas e breves verdades do cotidiano? Somos ou não somos feitos de barro? Parece que não. Ou pelo menos para alguns esse barro é delicado demais, um sopro de sinceridade e o mundo vai ao chão.

Ultimamente ando mais impaciente com essa coisa da mentira social, a pequena e suave mentira para manter as relações sociais vivas. E olha que um ariano impaciente já é uma completa redundância. Mas a vida segue e nem sempre é possível agir como a natureza manda. Sim, eu controlo minha natureza. Nem sempre consigo, mas tento. E quando não consigo, tomo café. O café me deixa mais quieto.

Nada me desarma mais do que a verdade. Tudo vai embora diante da verdade. Raiva, desapontamento, mágoa, indignação. Qualquer desentendimento se resolve diante da verdade. Não sei explicar a origem disso, só sei que comigo é assim. Talvez pelo estado de fragilidade que o outro se coloca quando resolve contar a verdade. Acho que desperta em mim um sentimento quase paterno de acolhimento. Mas de repente, muitas vezes sem necessidade alguma, lá vem a mentira toda sorrateira...
  • Eu tenho uma idéia que um dia ainda coloco em prática de forma irreversível. É simples como água. Não me pergunte nada que não esteja preparado para ouvir a resposta. Vai que eu estou naqueles dias de ariano e resolvo responder de forma objetiva e clara... Não confundir com grosseria. Em ocasiões que a verdade poderá causar constrangimentos ou mágoas eu prefiro a melhor atitude que já inventaram no mundo dos movimentos: o silêncio.

Veleiro

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

A arte de voltar - show do Marcos Sacramento


Depois do show cancelado, Marcos Sacramento volta à Fortaleza e faz um estupendo show. Sim, não dá pra dizer que foi um show comum com início, meio e fim. Foi um show completo, pontuado pelo medo e a emoção. Como seria a reação do público? Como seria a primeira canção e a primeira vez que ele encararia talvez o mesmo público de antes? E se o som resolvesse de novo pifar?

Creio que tudo isso passou pela cabeça do cantor porque no burburinho da platéia havia essa interrogação: e se...? Mas o que se sentia, entre os convidados para esse retorno, não era a dúvida do dissabor, era a certeza de que dessa vez tudo seria diferente. Mesmo que o teatro tombasse e a iluminação sumisse e o som desaparecesse. Tudo seria diferente. E foi.

Eu falei teatro? Sim, dessa vez o show foi no teatro do Dragão do Mar e não no anfiteatro, espaço aberto sujeito às intempéries da natureza. Com o espaço fechado, ar condicionado e o jogo de luzes contando a história do show, tudo ganhou uma nova dimensão. Uma crônica contada em versos, música e cantoria. Um enredo conduzido por um narrador seguro e consciente de seu papel de comandante. De seu rosto percebia-se aos poucos a máscara da preocupação cair, e o semblante foi ficando, ao passar de cada canção, mais sereno. Em um determinado momento disse: "alguns aqui sabem como esse show é importante para mim". E era sim. E ele levou a sério essa coisa de retornar ao lugar de antes e reconstruir o que ficou pra trás. Poderia ter seguido adiante, tantos não fazem assim? Mas não.

Ele quis que fosse diferente. Que aquele mesmo público que voltou para casa carregando no bolso o desolamento do último show voltasse agora com o corpo e a alma cheia de alguma coisa maior, que não se diz o nome, mas que se sente. E sentindo, até pode em palavras vulgares, dizer por aí: sabe, ontem no show do Marcos Sacramento, eu fui feliz.

Eu nem esperava, mas ele queria tanto que ela, a felicidade, voltasse com a gente, que ela, tinhosa como sempre foi, cedeu. E voltou. Voltou com cada um que ali esteve. Reconheci isso no rosto dos cúmplices na saída do teatro. Na saída, revi dois amigos que foram conferir o show depois do burburinho da última apresentação. Eles disseram: você viu? Como incrédulos ao que foi apresentado na narrativa das luzes, no ambiente no palco, na sonoridade dos músicos. Que violões! Que pandeiro! Que enredo!

E o narrador lá, cantando como sempre cantou, totalmente envolvido com a narrativa de seus personagens. Aqui e ali um agradecimento à platéia que às vezes esquecia de parar de bater palmas como aconteceu depois que ele cantou A Rosa (do Chico Buarque) ou Vela no breu ( do Paulinho da Viola e Sergio Natureza), talvez esta, a música mais aplaudida. Pela letra, pela canção, pela interpretação do Marcos Sacramento.

No fim, no bis, a apoteose da canção do Herivelto Martins dizendo "vestido de seda, capote de forro, civilizarei o morro".

Não, não é bem assim, não foi dizendo, deixa eu corrigir... in-ter-pre-tan- do. Um cantor-ator no palco. Um cantor que sabe a diferença entre cantar e interpretar. E faz os dois, quando quer e bem quer para delírio e surpresa da platéia. Ora junto, ora separado, o ator e o cantor se misturaram. Na medida certa, sem exageros ou caricaturas.

O que eu posso dizer para concluir esse relato sobre o show do Marcos Sacramento é que foi um show único. Sim, essa palavra define tudo. Sabe quando você ouve alguém cantar e sabe na hora quem é aquele artista? É assim, no estilo, no jeito, na escolha do repertório, na interpretação. Tudo ali é autêntico e único. E essa é sua maior virtude.


Veleiro