domingo, 13 de julho de 2008

Duas canções e como lidar com o pouco...

Todo mundo tem suas canções preferidas, seus discos inesquecíveis e seus livros de cabeceira. Eu não sou diferente, tenho tudo isso também, mas nada definitivo. Com o passar do tempo algumas peças mudam, algumas canções entram na relação de “música inesquecível”, alguns livros passam a ser fundamentais para minha compreensão do mundo.

Uma dessas canções eu conheci há menos de quatro anos (e ela já tinha sido composta há mais de vinte anos, vinte anos...). Lembro que era noite, lembro que estava dirigindo o carro aqui em Fortaleza, levando um amigo para reconhecer a cidade (O Adalberto mora em Brasília, mas é cearense e tem família em Fortaleza), algum lugar para jantar, coisa desse tipo. Havia mais alguém no carro conversando animadamente (não lembro quem, mas tenho quase certeza que era o Érico) quando o Adalberto colocou um cd no play do carro e deixou tocar aleatoriamente algumas músicas. Percebendo que eu já não falava por algum tempo ele me indagou: o que houve? Eu estava mudo, perdido num silêncio que sempre me acompanhou a vida inteira. Um silêncio que só eu sei o tamanho, de onde vem e o que ele faz comigo.

Respondi como se tivesse saído de uma outra dimensão, como se tivesse caído da carruagem do tempo que percorre a estrada do destino e que leva a um lugar estranho, distante, bem distante. Tão distante e tão terrivelmente próximo como a realidade que nos sopra aos ouvidos vozes de real crueza.

Então perguntei quem estava cantando, qual o nome da música, quando havia sido feita, quem havia construído a melodia, os arranjos, a letra, enfim, tudo.

As respostas vieram na seqüência. A música era “Entre Aspas” de Sérgio Natureza e Lourenço Baeta. Havia sido gravada pelo Lourenço, em 1979, num Lp com arranjos do próprio Lourenço, Dori Caymmi e Gilson Peranzzetta. Nunca esqueci esses detalhes, nunca esqueci cada verso dessa canção desde a primeira vez. Lembro que para identificar a música repeti versos inteiros como se estivesse recitando um dos poemas que trago na memória, a memória daquele menino aprisionado pela poesia que sempre fui. Lembro que o Adalberto ficou impressionado ao perceber que eu já sabia os versos de cor depois de ouvir uma única vez...

Logo consegui uma versão digitalizada do Lp inteiro, e desde então, ele passou a ser um dos álbuns mais ouvidos aqui em casa, no play do carro, no aparelhinho moderno que uso nas caminhadas, em casa antes de dormir. É um álbum maduro, consistente, com arranjos impecáveis e versos que se entranharam na minha alma de forma definitiva, violenta e estranhamente suave, muito suave. A sonoridade desse álbum fala de um tempo que não existe mais, um tempo que só existe se você fizer uma força muito grande para evitar que o mundo de fora tome conta desse nosso mundo de dentro.

Esse exercício fez desse álbum ser o que ele é: um disco absolutamente atemporal, que pode ser ouvido hoje, ou daqui a 20 anos, e o impacto será o mesmo. Desde que você, ouvinte, deixe o mundo de dentro conversar sozinho com você e seu mundo de fora.

Aliás, o exercício do conversar consigo mesmo, sozinho, está apontado nessa música “Entre Aspas”. E talvez por isso ela tenha laçado de vez meu coração. Diz assim:

“Botei teu nome entre aspas
Do sobrenome não lembro
Como não lembro das cartas
Que te mandei certo tempo.
Pra desfazer velhas tramas
Armar o quebra-cabeça
Trocar a roupa da cama
Deitar no chão sob a mesa
E ainda agüentar a conversa
Comigo mesmo sozinho...

Me tira o sono, me enfeza
De vez em quando eu definho
Angústia que me apunhala
Ante o que eu vejo e duvido
É como o corte mais fundo
Do diamante no ouvido
É como o peso na mala
De um viajante perdido
É o sofrimento infinito
De vê-la presa entre aspas...”


Quem resiste a versos como esses?

Nesse Lp também tem uma outra música muito especial, chama-se “Meio-termo”, do Cacaso e Lourenço Baeta. Essa canção me faz lembrar perdas irreparáveis. Parece que a gente nunca se prepara para definitivas despedidas, sempre pensamos que haverá outro dia, outra chance.

Essa canção é uma conversa com a morte, mas não só a morte física de alguém que amamos, mas a morte em si, a morte que está em tudo que nos cerca. A morte de sentimentos, a morte de lembranças, a morte de grandes vontades que resultaram em poucos gestos, poucas palavras, poucas atitudes. Fazer o pouco, acostumar-se com o pouco, é uma forma de morrer... aos poucos...

Quantas vezes não fazemos o pouco, não queremos o pouco, não pedimos o pouco, não nos acostumamos com o pouco? Quantas vezes morremos devagarzinho, aos poucos, com medo de sentir tudo de uma só vez?

Eis a letra dessa bela canção que também está nesse Lp de 1979:

“Ah, como tenho me enganado
Como tenho me matado
Por ter demais confiado
Nas evidências do amor

Como tenho andado certo
Como tenho andado errado
Por seu carinho inseguro
Por meu caminho deserto

Como tenho me encontrado
Como tenho descoberto
A sombra leve da morte
Passando sempre por perto

E o sentimento mais breve
Rola no ar e descreve
A eterna cicatriz
Mais uma vez
Mais de uma vez
Quase que fui feliz...

A barra do amor é que ele é meio ermo
A barra da morte é que ela não tem meio-termo”



Para quem está vivo eu recomendo: procure ouvir esse álbum, procure ouvir essas canções do Lourenço. É uma forma de lutar contra nossa mania de pouco, nosso desamparo com vida, nosso desapego aos bons sentimentos, nosso medo da morte e nossa infantil esperança de que sempre haverá amanhã para todos e que podemos consertar algo depois. Não podemos, não podemos. O depois pode não existir. E a vida segue em frente... Sempre.

Veleiro

2 comentários:

Anônimo disse...

Veleiro,
sei que a maioria dos fãs da Elis sempre cita 'Atrás da Porta' como sua interpretação magistral. No entanto, minha canção preferida por ela interpretada, sem dúvida, é 'Meio-termo'. Não há como ouvir e não chorar. Meus amigos de farra sabiam disso e sempre me pediam para cantá-la, quando sentiam que o clima era especial para isso. Excelente lembrança.
Beijo.
Gabriela Brabo

Veleiro disse...

bem lembrado gabi... bem lembrado!

syo, a gabi é de Belém do Pará mas está atualmente morando em Porto Alegre!

valeuuuuuuuu