quinta-feira, 31 de julho de 2008

De tudo fica sempre um resto...

Eu sempre quis que algo de bom ficasse quando o amor chegasse ao fim. E muitas vezes eu me recusei a deixar o amor ir embora porque não tinha me preparado antecipadamente para essa despedida, mesmo que em mim o amor já não existisse, mesmo que fora de mim o amor não me visse com olhos lassos (sem ironias, nem cansaços).
Não importava, antes do amor ir embora deveria haver um quase-algo preparado, uma despedida que anunciasse um ponto final e eu não me transformasse (como sempre me transformo) em eternas reticências. E ficava agarrado ao quase-amor que ainda restava por uma infantil necessidade de guardar algo que o representasse. Um retrato, uma carta, um cartão postal que denunciasse algum instante de alegria, afeto, amor. Algo de concreto devia ficar, um símbolo que seja, qualquer coisa. Eu e meus símbolos. Eu e minhas chaves que não abrem porta alguma. Eu e minha estranha necessidade de ter algo palpável para lembrar. Sou apegado a detalhes, sempre fui.

E muitas vezes deixei de perceber que o que deveria ficar não era um objeto, uma fotografia, ou uma chave, era algum sentimento, ainda que de difícil definição. Só com o tempo aprendi a deixar que algo ficasse entranhado em mim que fosse do amor que ia embora. Algo invisível, imaterial e incrivelmente palpável. Algo que o coração se prepara a vida toda pra receber, hospedar, acolher. Algo como a lembrança de uma lembrança (isso me lembra Manuel Bandeira... será do poema morte absoluta? talvez... "que céu pode satisfazer o teu sonho de céu?").
Hoje, esses pedaços, que são lembranças que me alimentam, temperam o amor presente e já não sinto saudade. Quer dizer, sinto, mas é uma saudade tranquila, morna. Saudade sem dor e sem vontade de reviver nada. A vida é hoje, meu tempo é agora.
P.S. Deixa eu fazer logo um esclarecimento: sou o maior ladrão literário do mundo, eu furto passagens literárias de livros que li e escrevo naturalmente sem perceber. Não é proposital, juro, é porque sempre tive facilidade para decorar. Na infância decorava muitos poemas e livros (passagens, textos) com medo que me mandassem jogar bola e eu não tivesse mais tempo para ler o livros que queria ler...

Veleiro

Um comentário:

David Duarte disse...

Gostei muito desse texto, Sérgio... De verdade!