domingo, 20 de julho de 2008

O poema perdido

A primeira vez que perdi um poema foi como ter um pedaço extirpado do corpo sem anestesia, sem acalantos mornos ou vozes suaves dizendo "vai passar, vai passar". A primeira vez doeu e doeu tanto que pensei em nunca mais escrever um poema. Fiquei tão doído no corpo, na alma e na desesperança de saber que nunca mais veria novamente aquele poema que jurei para mim mesmo não escrever um outro poema.

Impossível recuperar o poema perdido, impossível tentar revivê-lo, reacendê-lo em outra chama, em outro pavio. Precisei de tempo para entender isso e por muitas noites tentei em vão ressuscitar o poema perdido. Velei seu corpo invisível na tela branca do computador tantas noites, tantas noites, que muitas vezes nem percebi o dia raiando do outro lado da janela. Por dentro de mim ainda era noite e eu me recusava a amanhecer enquanto meu poema não ressurgisse dentro de mim.

Foi tudo tão rápido que eu já nem lembro direito como tudo aconteceu: uma tecla errada, um dedo apressado e pluft o poema sumiu.

Cada poema é único e aquele que perdi pela primeira vez foi único dentro de mim e eu nunca mais o esqueci. O tempo passou e muitos poemas voltaram a se perder dentro de mim e fora de mim também, que é onde eu mais perco as coisas. Confesso que muitas vezes me perdi deles também, fugi feito rio violento em noite escura me escondendo na escura e violenta mágoa daquela primeira frustração. Fugi de medo. Eu tenho muitos medos, medo de tudo, tenho medo dos meus poemas, medo das minhas palavras que não dizem o que eu quero dizer, medo que elas voltem a desaparecer outra vez.

Tento não deixar o medo paralisar meus sentidos e por isso escrevo. Escrevo para me lembrar que um poema perdido, como tudo que se perde, já nasce para se perder, a gente é que não sabe disso antes.

Mas hoje não quero escrever um poema, não quero ressuscitar versos perdidos ou guardados nas imensas gavetas das minhas saudades. Hoje não quero brincar de poesia nem chorar pelo verso perdido (mais um!). Quero só ficar quieto no meu canto, em silêncio, em silêncio.
Veleiro

2 comentários:

vera lima disse...

Quantas vezes mais eu leia esse teu texto, mais significados sempre virão ... em forma de metáforas e simbologias dos algos que carregamos, dos que já perdemos mas ainda não "sabemos" e continuamos a carregar, dentro da noite que teima em não amanhecer. Se soubéssemos, doeria menos?
Quando os ventos são "brabos" bom mesmo é o silêncio, o agasalho da alma que a resguarda das tempestades até que venha tempo bom.
E se tempo bom vier "lembraremos" que "tudo que se perde, já nasce para se perder, a gente é que não sabe disso antes"?

Adorei teu texto Serginho!
Uma beleza doída(não doida)mas cheia de lucidez!!!

Beijão.

Veleiro disse...

Verinha, você parece que capta tudo... tudo mesmo... depois que aprendi a lidar com as coisas perdidas e entender as perdas como aprendizados a vida ficou melhor. Por que a gente tem que reter tudo? A vida não é um fluxo? Então vamos deixar as coisas irem, tem coisas que chegam pra depois partir, ir embora, e isso pode acontecer tão silenciosamente que a gente até pensa que perdeu... não perdeu, apenas partiu sem avisar.

Você tem sensibilidade à flor de jasmim na pele! Entendeu tudo!

bjsss

Veleiro